quarta-feira, 11 de março de 2009

Corruptus brasiliensis

Podemos afirmar que não se trata de um pássaro, nem é um gênero de ocorrência exclusivamente brasileira, embora a espécie brasiliensis seja própria do Brasil, há indícios de que fora detectado há 500 anos atrás, é um patógeno, mas não é próprio nem descoberto no âmbito da ciência biológica, embora necessite da forma humana para se manifestar. O Corruptus é um mal do caráter, está no DNA de todo ser humano, mas, em umas pessoas é de caráter recessivo, enquanto em outras é dominante, ou plena e francamente dominante. Portanto, não é vírus, bactéria, nem pertence a classe insecta. No Brasil, as espécies que mais se manifestam e representam grande perigo à nação, ou mais especificamente, aos cofres públicos são o Corruptus brasiliensis executivus, o Corruptus brasiliensis legislativus e o Corruptus brasiliensis judiciarius. Estes podem se manifestar, quando encontram ambiente propício, nas esferas municipal, estadual e federal. Por isso, quando se deseja caracterizar o ambiente ou esfera de ação deste nefasto ser, coloca-se após o seu nome a letra inicial do ambiente em alusão. Assim, o Corruptus brasiliensis executivo m., refere-se ao brasileiro ou a brasileira de caráter manifestamente corrupto, que se nutre da subtração dos cofres públicos no poder executivo municipal. Mas, é comum que Corruptus de esferas de atuação diferentes ajam em perfeita sintonia, ou seja, têm ação sincronizada, em cadeia.
Todos são igualmente lesivos ao erário. Vale acrescentar que o Corruptus é um mal próprio à esfera pública, tendo na esfera privada a indução de um outro patógeno do mesmo gênero conhecido como Corruptus corruptoris, vulgarmente conhecido como corruptor, que age em parceria com as outras espécies alimentando-as para que estas possam ser cada vez mais danosas ao ambiente em que atuam.
Há quem afirme que no Brasil o maior de todos os males é a corrupção, ou seja, os estragos causados pelo Corruptus. Dizem que nem mesmo os estragos causados pelas intempéries climáticas se comparam à maldade e aos danos próprios da ação do Corruptus. Isto se explica pelo fato de o Corruptus ser tão malvado que mesmo num ambiente de estragos causados por secas, enchentes, terremotos, ou vulcões, o Corruptus age se aproveitando da situação, chegando mesmo a roubar até do flagelo decorrente do caos que se instala nessas situações. Só para se ter uma idéia do nível que chega a maldade dos seres do gênero Corruptus, eles são mais desastrosos que as guerras, uma vez que numa nação em estado de guerra, sob irreparáveis danos – morte, fome, desabrigo, miséria, o Corruptus se manifesta para tirar proveito da situação e, como é de costume, agravar o estado de necessidade da população. O Corruptus se nutre essencialmente da miséria humana e dentre as classes sociais, os pobres são as suas vítimas preferenciais. A fartura do Corruptus significa a falta de moradia, hospitais - leitos hospitalares ou a negligência dos serviços de saúde, a falta de transporte, segurança, alimentos, saneamento básico, educação, postos de trabalho e outros bens e serviços essenciais às pessoas das classes mais populares. O Corruptus quando age no âmbito das classes sem privilégios é chamado ladrão, contudo, esta não é uma terminologia própria da High society, habitat próprio, preferencial e costumeiro do gênero. Aliás há indícios de que a terminologia foi criada para distinguir ladrões de classes distintas, e ainda, porque o Corruptus por se tratar de um fino rapace, utiliza-se de meios refinados para subtrair o patrimônio público.

domingo, 1 de março de 2009

A Página em balanço


No ano passado escrevi 12 pequenos textos para A Página do LF: 11 artigos e uma poesia que tive a oportunidade de contar com a participação de Paulo Di Linhares, meu filho.
Quando iniciei, em abril do ano passado, foi com o intuito de preencher um vazio na minha vida, ocupar-me de um afazer prazeroso – escrever sobre coisas do quotidiano, emitir opiniões sobre coisas e aspectos da vida. Sobre a política de quotas para negros, a união no trabalho, reforma agrária, meio ambiente, observações sobre as viagens de trabalho, racismo, disputa política no interior, participação econômica em campanhas eleitorais, pesquisa sobre a palmeira do coco babaçu, e ainda, uma crônica de despedida de uma ex-companheira de trabalho que completou o seu ciclo entre nós, foram assuntos dos quais me ocupei, exteriorizando o que penso.
Para minha surpresa, muitas pessoas deram-me o prazer da atenção, lendo cada um dos textos e várias manifestaram preciosas e incentivadoras opiniões. A todas essas pessoas os meus mais sinceros agradecimentos pela cara atenção a mim dispensada.
Quero de modo especial agradecer aos meus filhos, Paulo César e Juliana, críticos imprescindíveis e consultores voluntários, cuja solidariedade e desprendimento foram-me sobremaneira importantes.
A interação com os leitores moveram-me a fazer esta breve avaliação deste pequeno interregno de existência da Página. Pretendo em 2009 que a vida flua de acordo com o que cada um de nós planejou e, no caso da Página, que a criatividade, a participação interativa e a prolificidade de idéias constituam marcas indeléveis de todo o curso da sua existência.Indubitavelmente esta experiência vitoriosa continuará no decurso de 2009, contribuindo modestamente para mitigar o debate democrático exteriorizando opiniões sobre os mais diversos assuntos de interesse da sociedade brasileira e, o que é mais importante, contando com a participação do/a leitor/a.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Um vôo em busca de mim

Tudo começou pela vontade de provocar um reencontro. A minha mudança deu-me a oportunidade de conhecer muitas coisas diferentes daquilo que eu até então conhecia, novas pessoas, espaço geográfico novo, novos costumes, gostos, tradições, ao mesmo tempo em que me distanciou de parte da minha família, da cidade que escolhi pra viver e, que embora não tenha nela nascido, sinto-me naturalizado. Também optei por abdicar da conclusão do curso de doutorado em Sociologia que eu fazia naquela época – maio de 2004, na Universidade Federal do Ceará (UFC).
De tudo isso decorre a saudade, menos pela distância geográfica, mais pela distância de algumas coisas que eu gosto de fazer, de algumas pessoas com as quais eu gosto de estar, conversar, trocar idéias, falar sobre política, Sociologia, Antropologia e outros assuntos acadêmicos, saber dos últimos lances desencadeados na política do Maranhão e, especificamente, na política ludovicense. Sair, ir ao cinema, esticar a noite tomando um caldo num lugar aconchegante, comendo uma comida japonesa ou da gostosa cozinha maranhense, dançar reggae, ou assistir, participar de um pagode na Madre de Deus, ou na Praia Grande.
Além das coisas lúdicas e das pessoas que gosto, senti falta ainda de outras coisas que gosto de fazer, como trabalhos de pesquisa, escrever artigos acadêmicos, escrever artigos para jornais – coisas com as quais trabalhava e sentia muito prazer.
De repente, me vi num Banco repetindo afazeres quotidianamente, mecanicamente, intensamente. Mas havia sonhos agregados a essa mudança, sonhos de alcançar objetivos por caminhos lícitos e meritosos, como foi o concurso que me conduziu a ser um engenheiro agrônomo de um Banco, aos 46 seis anos de idade, deixando outros empregos, o curso de doutorado, casa, filhos em São Luís, para morar no interior do Estado do Tocantins. Enfim, deixei o que chamam de “zona de conforto” ou “zona de comodismo”, para perseguir a concretização de novos sonhos, a consecução de novos objetivos.
Não foi fácil, no período que eu chamaria de adaptação, o silêncio, a saudade, o banzo, deram vazão a uma série de doenças. Nunca havia adoecido tanto, somatizado tanto e tão gravemente. Passei por dificuldades que só a família, o núcleo familiar mais próximo percebe.
Depois veio a calmaria com a adaptação, com o aprendizado da vivência e da convivência. Com o descobrimento dos lugares, enfim chegara a fase do conhecimento e do reconhecimento. Tudo isso é como se tivesse vivendo um rito de passagem para alcançar uma fase enigmática, atravessando uma sucessão de etapas.
Como parte dos sonhos, iniciei uma fase de construção de caminhos para a felicidade, mas, os caminhos sonhados, queria eu construí-los como nos sonhos, pelo modo ideal. Mas, na realidade, a construção de caminhos dessa estirpe não se realiza sem interferências, articulações, apoio de outrem e conchavos. Simplesmente porque são caminhos desejados por iguais e outros ainda mais iguais, não se conquistam assim como nos sonhos, mas na luta, na disputa, às vezes como na guerra e, o pior, com toda a ilicitude própria das guerras e das disputas sub-reptícias das políticas próprias desses embates.
Quando percebi isso, o meu interior se encheu de nuvens turvas precipitando em mim a tristeza de me reconhecer ingênuo no meio de um processo para o qual me julgava preparado e de acreditar em sonhos sem pavimentar a estrada de concretização destes do mesmo modo como fizeram os meus concorrentes.
A tristeza que sobre mim se abateu parecia infinda, mas as pessoas que fazem o percurso que eu fiz e chegam aonde eu cheguei, da maneira como cheguei, jamais podem se dar à incipiência de confundir luta e guerra. Aquela constitui parte desta, mas nem sempre significa o seu final. Foi então que eu decidir fazer coisas que gosto e que me fazem feliz, afastando de mim a tristeza aguda que pavimenta os caminhos à depressão. Tenho muito medo desta, nunca a senti, não a desejo e, enquanto puder, dela me manterei distante.
Assim pensei, assim o fiz. Dois projetos vieram à tona: o primeiro foi fazer um blog no qual eu colocasse as minhas idéias em artigos e crônicas feitas sobre assuntos do quotidiano; o segundo, construir um texto sobre a minha experiência de trabalho no Banco. Ambos foram iniciados, mas o projeto do texto, como exige algumas pesquisas ou verificações adicionais, exigindo de mim mais fôlego, ainda está em sua fase preliminar. Entretanto, pretendo continuá-lo e concluí-lo neste ano de 2009.Quanto ao blog, creio que é um projeto pessoal vitorioso.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Adeus Lilás

Nas nossas vidas há presenças que chegam assim por encanto e outras que nem percebemos, mas, quando nos damos conta já fazem parte do nosso convívio.
Acredito que ainda distante, percebia a tua presença como uma pessoa ligada à Rosângela, naquela época supervisora, depois alçada à gerência da agência do Banco da Amazônia em Tocantinópolis, que no convívio diário preferíamos chamá-la Rosinha ou Rosa. Para mim, você era empregada na casa da Rosa, só depois eu fui perceber que para além disso, você era na verdade tia do marido da Rosa, o Jessiano.
Com a Rosa na gerência da agência você foi contratada como uma espécie de zeladora. Desde esse tempo passamos a conhecê-la melhor: nas festas no Basa Clube, quando cantávamos no Caraoquê, ou no bate papo ali mesmo enquanto tomávamos uma gelada, que aliás, você gostava muito.
Tinha uma mão abençoada para cozinhar, bastava-lhe o mínimo de condimentos para que você fizesse uma comida maravilhosa. Foi bem aí, que nos aproximamos mais. Com a avalanche de trabalhos que tínhamos na época, trabalhávamos muitas vezes sem pensar sequer no horário, pensávamos apenas no cumprimento do dever. Entrávamos às oito da manhã saíamos às oito da noite e, não raras vezes, saíamos de madrugada.
Nessa época começamos a recorrer a você para fazer, uma vez ou outra, o nosso almoço na cozinha da agência. Fazíamos cota, comprávamos peixe, carne, ou frango e entregávamos para você. Não precisava falar a hora de comer, sentíamos o cheiro da comida saborosa que você fazia e logo mandávamos o recado: “fulano diga a Lila que feche a porta da cozinha que a comida está cheirando lá na rua e a agência está cheia de clientes”.
Às vezes comprava peixe e pedia a você que cozinhasse pra gente. Era uma festa na cozinha, no interregno das doze às quatorze horas. E você Lila, com seu paladar maravilhoso, patrocinava aquele nossos momentos de alegria, quando do aperreio nosso de cada dia para cumprir as metas do Banco, mesmo num momento quando essas não nos eram impostas.
Daí então, passei a chamá-la Lilás, aquela presença de mais de quarenta anos de vivência, com a simplicidade dos sábios, a ingenuidade de uma criança, uma vertente etílica irreparável, de modo que eu, às vezes pensava que alguma coisa lhe afligia tanto a alma para que você se submetesse seguidamente às limpezas etílicas da alma como forma de aplacar as dores espirituais.
Foi o mesmo álcool que lhe servia de lenitivo, que lhe afastou do trabalho que tanto nos uniu. Seguidas chegadas com atraso ou faltas ao trabalho comprometeram a sua estabilidade no emprego, não bastasse a falta da Rosa transferida para Araguatins, lhe faltara também o emprego, apesar das nossas intervenções inócuas.
Mas, agora nada disso lhe fará falta, porque Lila, ou Lilás, como eu preferia, já não pertence mais ao nosso mundo, se eternizará na memória daquelas pessoas que desfrutaram da sua amizade. Já perdoou a todos lhe feriram e já não guarda qualquer resquício de mágoa no peito, porque anjos não magoam e não guardam rancores. Já fez sua passagem, e tudo que viveu aqui, alegrias, tristezas, saudades, melancolias, ou quaisquer outros sentimentos faziam parte de um rito que lhe determinara o Senhor do Universo – o seu rito de passagem.
Vai Lilás, aqui já completaste o teu rito de passagem, deixando em nossos peitos o vazio irreparável da amizade simples, aos familiares a lacuna perpétua do amor que dedicaste aos pais, filhos, irmãos, sobrinhos e netos.
E a mim, que às quatro e quarenta da manhã não consigo dormir, lembrando do convívio, das tuas confidências, do modo como você me chamava de “Seu Luís”, resta-me verbalizar as minhas lágrimas com as tuas lembranças. Adeus Lilás.