segunda-feira, 20 de setembro de 2010

A você, maestro Nonato, os meus respeitos

Era o final da década de 1970, quando o carnaval de São Luís tinha uma participação muito significativa dos blocos organizados. Eram muitos e muito bons concorrentes entre si: Mocidade Independente Turma do Saco – MITS, Unidos do Regional Tocado a Álcool – URTA, Turma do Lamê, Sem Komentários, Turma do Fola, Retiro Natal, e muitos outros blocos organizados todos de considerável qualidade.
Na época, participávamos da Turma do Saco, uma grande paixão na minha vida de folião, participante da comunidade do Bairro do Codozinho. Eis a questão. Na Turma do Saco, optamos por ser mais que um bloco carnavalesco, um clube comunitário, com compromisso com a comunidade. Diria que na época nos sentíamos responsáveis pela animação do bairro. Ali festejávamos datas como o dia dos anciãos, o dia das mães, o dia dos pais, o dia das crianças, o período junino, o Natal e outras datas festivas do nosso calendário.
Mas, éramos um bloco carnavalesco situado na Grande Madre de Deus, reino do URTA. Precisávamos também alegrar o bairro do Codozinho com títulos carnavalescos, mas para isso tínhamos que superar os nossos irmãos ali da Madre de Deus. Foi então que montamos uma estratégia que iniciava por um esforço coletivo de dar notoriedade à Turma do Saco.
Nesse projeto os radialistas e jornalistas de São Luís foram grandes aliados. O outro nosso ilustre aliado foi o Maestro Nonato. Passamos a fazer festas de escolha do samba enredo do bloco e a divulgação do samba nas emissoras de rádio de São Luís. Para tanto tínhamos que gravar o samba. Mas como e onde?
Éramos um grupo de jovens amantes do samba e tocávamos alguns instrumentos, mas não entendíamos de estúdio, não conhecíamos nada do processo de gravação fonográfica, mas tínhamos uma força de vontade capaz de superar qualquer dificuldade ou obstáculo que se pusesse a nossa frente – éramos a Turma do Saco do Codozinho.
Num bloco carnavalesco a maioria dos músicos são percussionistas e, quando não se tem o costume de tocar num ambiente que integre percussão com instrumentos de corda a coisa às vezes complica. Num estúdio então, é um Deus-nos-acuda. Por isso é que temos muito respeito pelo Maestro Nonato. Ele nos recebia em seu estúdio e nos dirigia horas e horas durante a gravação dos sambas enredo da Turma do Saco. Paciente, competente, músico de notória capacidade educativa, um amante da música, sobretudo da música que fazemos aqui no Maranhão.
Maestro Nonato nos deixava tocando horas a fio e aos poucos ia fazendo um trabalho educativo até que chegássemos a um estado que valesse a pena gravar. Assim foram os primeiros anos, depois fomos aprendendo com ele, mudando o nosso comportamento em estúdio e, consequentemente, extraindo um produto melhor do nosso trabalho musical.
Essa parceria ilustre atravessou os anos 1980, quando a Turma do Saco ganhou uma série de títulos, com o auxílio brilhante do nosso maravilhoso maestro.
Maestro, na verdade o respeito que temos por você foi construído carinhosamente nesse interregno específico da História da Música Popular Maranhense, cuja construção você protagonizou como Maestro, dono do inesquecível grupo Nonato e seu Conjunto, e ainda, como pioneiro na edificação de um estúdio musical, possibilitando que músicos maranhenses tivessem a oportunidade de gravar e difundir os seus trabalhos. Por tudo que fez por nós e conosco, dedico-lhe as minhas palavras, sobretudo, de agradecimento e de reconhecimento da lacuna musical que neste setembro o senhor deixa, após prestar uma relação imensurável de serviços à música maranhense.
Sabemos, maestro Nonato, que para além do seu trabalho como músico, pianista, você teve muitos aprendizes que hoje brilham e ampliam o elenco de discípulos que beberam na fonte de conhecimento musical que você foi. Zé Américo, Valber, Oberdã, Pitomba, são ilustres músicos que continuam o trabalho que você começou em um tempo que ser músico era algo muito difícil.
Por tudo isso, Maestro Nonato, os nossos mais sinceros, saudosos e carinhosos respeitos.

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sábado, 4 de setembro de 2010

O que mais nos falta para definitivamente respeitarmos a natureza?

Há tempos cientistas vêm alertando a humanidade da necessidade que temos de explorar a natureza atentando para os limites que o uso sustentável dos recursos naturais pressupõe.
No exercício da minha profissão observo a resistência que têm os proprietários rurais do Brasil em cumprir o que determina a Lei n.o 4.771, de 15 de setembro de 1965 – o Código Florestal vigente, no que respeita à conservação da área de reserva legal que toda propriedade imobiliária rural deve ter. Propriedades incidentes na região configurada como bioma Floresta Amazônica devem conservar uma área de reserva legal num percentual de 80% da área total do imóvel. No bioma Cerrado, esta área diminui para 35% e, em áreas de Campo a reserva legal é de apenas 20%.
A reserva legal foi instituída com o objetivo de preservar essências florestais nativas e, consequentemente, a fauna característica dos diversos tipos florestais das regiões do país. Isto propicia que as gerações posteriores conheçam os diversos tipos florestais e a respectiva fauna característica de distintos tipos ecológicos.
No Brasil, houve uma época, em que o lema era integrar para não entregar, em que o governo incentivava a colonização como forma de desbravar a Amazônia. Essa política atraiu empreendedores e aventureiros de todas as outras regiões do Brasil, notadamente do Centro-Sul.
Muitos foram os que venderam as terras que tinham em suas regiões de origem e compraram terras baratas e abundantes na Amazônia. Nesse bojo, muitos compraram terras que já constituíam posse antiga de pequenos agricultores autóctones ou saídos de suas terras de origem escorraçados pela violência decorrente dos conflitos pela disputa da posse da terra.
Interessa aqui ressaltar que as leis que regulam sobre o uso da terra já existiam, entretanto essas leis sempre foram flexibilizadas em decorrência de interesses imediatistas acionados não raras vezes em nome do desenvolvimento da nação. É, mas como diz o dito popular, não há que cuspa pra cima que não lhe caia na cara. Aí está o nosso país cuspidinho e escarrado. Mandou desbravar, desmatar, integrar contingentes populacionais das demais regiões à Amazônia, e agora, temos que limpar o rosto nacional cuspido pela vergonha do desmatamento desenfreado, das queimadas, da devastação de florestas, da inutilização de solos outrora férteis, de inúmeros outros crimes contra o meio ambiente. Tudo em nome de um desenvolvimento socialmente injusto, economicamente oneroso e ambientalmente desastroso que não se sabe a quem serve.
A cusparada que desceu em queda livre veio trazendo assoreamento de rios, enchentes incontidas, desmoronamento de morros onde ergueram edificações indevidamente, desabamento de pontes, interrupções de estradas, aumento da média da temperatura, diminuição da umidade relativa do ar, mudanças no regime pluviométrico, alteração do volume de água de vários rios, desabrigo milhares de famílias, mortes, aterramento de casas e famílias inteiras, outros prejuízos, cujos culpados jamais se apresentaram para arcar com os prejuízos.
Esse conjunto de fenômenos, em que pese os esforços do governo no sentido de reverter a situação, tem se repetido periodicamente em regiões diversas do país.
A pecuária é a grande vilã da história, mas a pecuária nos moldes como está configurada no Brasil contou, e isto é fato, com diversos programas de incentivo do governo. Contudo, é hora de formatar a agricultura brasileira (lavoura e pecuária) com uma configuração mais apropriada aos tempos hodiernos. Afinal, a pesquisa nacional já possui tecnologias suficientes para desencadearmos um processo de desenvolvimento mais produtivo, que freie o desmatamento, que cultive sinergia entre os diversos sistemas de produção desenvolvidos no âmbito da propriedade rural, que gere e utilize formas de energia alternativas (aproveitando para isso cursos de água, estercos e outros recursos existentes nas propriedades) que embora intensifique o uso de tecnologia aumente a oferta de postos de trabalho.
Para tanto, é necessário que no âmbito do crédito rural se estabeleça normas condicionantes para compelir os agricultores que dele se beneficiam a empregarem efetivamente tecnologias ditas sustentáveis.
No âmbito da assessoria técnica rural, deve-se estabelecer novas formas de prestação desses serviços, chamando os agricultores componentes da agricultura familiar e da agricultura patronal a estabelecer um pacto de sustentabilidade que envolva o emprego de tecnologia, a conservação do meio ambiente, o emprego de formas alternativas de energia, o aumento da produtividade.
Percebe-se a necessidade da quebra do paradigma agricultura patronal versus agricultura familiar. Não se vislumbra sustentabilidade que enseje justiça social e um ambiente de paz e harmonia no campo enquanto a agricultura patronal e a agricultura familiar não perceberem formas de parceria sustentáveis entre si. Sem esquecer as diferenças que marcam essas categorias, creio na possibilidade de estabelecimento de formas sustentáveis de relação ( socialmente justa, economicamente vantajosas às partes, ambientalmente respeitáveis e, o que é essencial, juridicamente delimitadas) que agregue vantagens aos dois segmentos, integrando interesses na segmentação da produção de bens, conforme o interesse das partes.
Do lado do estado, vê-se a necessidade urgente de evitar dissipação de formas de energias técnica e administrativa, evitando a prática de multiplicidade de ações desordenadas em diversos entes oficiais que embora façam atividades semelhantes não compartilham o fluxo das informações resultantes dos seus afazeres. Com respeito ao cuidado com o meio ambiente, poderíamos ter uma ação bem mais abrangente se os órgãos fundiários (federal e estadual), as instituições financeiras aplicadoras de crédito rural e os órgãos ambientais (no âmbito das unidades da federação e da União) trocassem informações e saberes entre si, estabelecendo, desta forma um sistema com ações, capacitação, arcabouço salarial e informações conexas e sistematizadas, em que, cada um dos entes pudesse usar as informações de acordo com os seus interesses.
Possível é que este seja um modo mais trabalhoso de se executar ações, todavia, é mais eficiente, mais eficaz, integrado, e se bem conduzido, contará com um fluxo de informações mais abundante e devidamente sistematizado, e prontamente disponível.
De uma coisa temos certeza, nada é mais oneroso à humanidade do que as catástrofes e as intempéries que estamos submetidos a cada ano em decorrência dos maus tratos e dos descuidos com que temos tratado a questão ambiental. Chega de tantos prejuízos, nada mais nos falta para corrermos em socorro de nós mesmos cuidando dessa nossa parte chamada de natureza.

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sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Magno Cruz mais um irmão que se vai


Doeu-me muito saber que o irmão Magno Cruz pereceu. A maneira como eu soube também contribui para que em mim o impacto fosse tão forte. No momento em que atendi o telefonema do meu compadre Laurindo, estava, literalmente, com as trouxas na cabeça, na rodovia BR-010 saindo de Porto Franco para Imperatriz seguido por um caminhão que conduzia a minha mudança de Tocantinópolis/TO para Santa Inês/MA, onde estou residindo a exatos 4 dias.

Conheci Magno Cruz quando ele ainda morava no Bairro Belira e eu no Codozinho, em São Luís/MA. Na época ele era estudante de Engenharia Civil e eu fazia o que hoje se chama de ensino médio. Foi o Zequinha de dona Elza (José dos Santos Costa, ex-deputado estadual, hoje Juiz de Direito) que o apresentou para mim. Fomos apresentados como pessoas que gostavam de samba, que tínhamos algo em comum. Eu era dirigente do bloco carnavalesco Mocidade Independente Turma do Saco, pelo qual ele desfilou um ano apenas.

Com o tempo a Madre de Deus foi tomando conta do coração de Magno Cruz e ele ali chegou a ser dirigente do bloco organizado Caroçudos numa época em que eu voltava à Diretoria da Turma do Saco e pude constatar a força de mobilização que tinha o líder Magno Cruz.

Magno Cruz era pessoa extremamente inteligente, cumpridora dos seus deveres, pontual nos seus compromissos, sério, às vezes até eu o achava sisudo, tamanha a seriedade dele. No entanto, embaixo daquela seriedade toda estava um ser humano sensível aos anseios povo brasileiro, amante dos folguedos populares, festivo na sua essência, sobretudo muito organizado.

Brincava com ele, falando sério naquela época em que amanhecíamos na Madre de Deus - um dia haveremos de trabalhar juntos pela Turma do Saco. Nunca realizei este sonho apesar da admiração mútua. Ele me chamava de modo sério e carinhoso de “meu irmão”.

Ali, na Madre de Deus amanhecemos muitas vezes, ora nos festejos juninos, nos ensaios de bumba-meu-boi movidos pelas catuabas da vida e sempre admirando as toadas maravilhosas de Mané Onça e do nosso saudoso Vavá; ora amanhecíamos nos bares da Madre divina na companhia de Luzian, Laurindo, Maju, do grande percussionista Lázaro, entre outros amigos.

Os papos eram ótimos, falávamos das coisas maravilhosas de São Luís, da cultura da Ilha. Das coisas que nos uniam e nos desuniam: Turma do Saco, Caroçudos, Turma do Quinto, Flor do Samba, URTA, Mané Onça, Humberto de Maracanã, João Chiador, Cristóvão da Madre Deus, comunidades negras rurais, direitos humanos, e tome cerveja para regar um papo tão prolífico, entusiasmado e diverso. Invariavelmente, amanhecíamos em algum boteco da Madre de Deus, ou mesmo no bar da Turma do Saco.

Depois entramos numa fase mais politizada em que Magno Cruz chegou à Diretoria do Centro de Cultura Negra (CCN-MA), do qual sou fundador, junto de amigos como Mundinha Araújo (grande liderança do movimento negro no Maranhão), Dr. Luizão, Dr. Raimundo Antônio, do Adv. Carlos Caroço, Vinólia, Professora Sílvia Black, Avelino Jansen, e outros amigos.

Mundinha Araújo tem o mérito de protagonizar a liderança, mobilização e a articulação de tantas pessoas na condução da fundação do CCN, em 1979. Magno Cruz foi capaz de honrar todo o esforço de Mundinha Araújo, dando ao CCN a configuração de movimento. Movimento, ação, alegria, dinamismo, são termos indicadores da gestão de Magno Cruz no CCN. Diria até que o movimento negro no Maranhão tem como um dos seus marcos de referência a passagem de Magno Cruz pela Diretoria do CCN.

Magno Cruz alçou vôos também na política partidária, na qual eu sei que ele não logrou tanto êxito. Participou da luta corporativa no âmbito da empresa em que trabalhara, mas também ali sofreu várias decepções. Amargou anos de desemprego em decorrência da luta séria que travara, passou por dificuldades e não teve o acolhimento devido no âmbito do movimento social que tanto defendera. Estes foram os ônus de uma luta séria, travada por Magno Cruz sempre visando o bem coletivo.

Magno Cruz jamais exitou em sair na defesa do povo negro, quaisquer fosse a ocasião que assim o demandasse. Lembro-me ainda de uma querela entre ele e o professor Ubirajara Rayol. Este defendia São Luís enquanto Athenas brasileira e repudiava o título de Jamaica brasileira; Magno Cruz rebateu artigos do professor Ubirajara Rayol defendendo o título de Jamaica brasileira que as rádios davam à cidade pela influência que o reagge exerce em uma significativa parte do povo ludovicense. Foi uma briga de gigantes onde cada um defendia a São Luís que lhe ensejava pertencimento. Ambos defendiam a mesma Ilha; Magno Cruz sabia do que falava o professor Ubirajara Rayol e este também sabia do que Magno Cruz falava. A defesa de Magno Cruz se prendia ao fato de que a Jamaica brasileira nada era senão a manifestação cultural de uma parte dos filhos da Athenas brasileira deixados culturalmente órfãos pela soberba indiferença de uma sociedade dita culta.

Poeta, entregou-me uma poesia que fez em homenagem póstuma para Célia Maria minha primeira mulher. Guardo comigo como um troféu, uma consideração irreparável. Magno era amigo de todos os momentos.

Com a passagem de Magno perdemos uma relevante liderança do movimento negro no Maranhão: pessoa séria, corajosa, sensível, intelectualmente brilhante e, sobretudo honrada.

Magno Cruz, é por tudo isso e outras coisas que as palavras não expressam que você nos enche de saudades na sua partida precoce, meu irmão.


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segunda-feira, 7 de junho de 2010

O racismo quase involuntário na literatura brasileira

Só para que se tenha ideia de quão forte e hegemônico era o pensamento racista entre grande parte dos intelectuais dos séculos XIX e XX, percebemos que nomes como Euclides da Cunha, Monteiro Lobato e Gilberto Freire, cujas obras literárias são de inequívoco valor para entendimento da história da sociedade brasileira, são acometidos de lapsos de cunho racista, quando tratam em suas respectivas obras deste assunto. Falo especificamente, de Os sertões, O presidente negro e Casa grande e senzala.
O magnífico Euclides da Cunha, quando explica os sertanejos como se constituíssem um grupo étnico, com tipo físico que seria, segundo ele, determinado geograficamente, definindo-os como uma raça menor, em que pese o plano intelectual altíssimo da sua narrativa, vê-se atrapalhado ao constatar a superioridade destes sobre as forças oficiais do exército brasileiro.
Monteiro Lobato, outro monstro sagrado da literatura brasileira, na tentativa de construir uma obra literária que o eternizasse junto ao povo norteamericano, cria um presidente negro natimorto. Numa narrativa espetacular é capaz de criar uma trama em que um discretíssimo cientista cria um instrumento denominado porviroscópio, por meio do qual é capaz de ver os acontecimentos futuros em qualquer plano geográfico da terra. O tal cientista ver se eleger nos Estados Unidos da América um presidente negro, entretanto, antes mesmo de assumir o cargo o tal presidente morre. Monteiro Lobato foi desaconselhado a editar o tal livro nos Estados Unidos. Quem sabe por que nem mesmo na ficção teve a coragem de olhar além dos limites do racismo.
Gilberto Freire faz extensa pesquisa, compilando documentos do Brasil escravocrata, enfocando a relação entre senhores e escravos, mostrando os interstícios da relação entre a casa grande e a senzala. Acredito na necessidade da leitura de Casa grande e senzala, para que se entenda melhor a formação do povo brasileiro. Numa narrativa singular, que torna a leitura agradável aos olhos do leitor, Freire, entre um parágrafo e outro, trata o negro brasileiro como um ser de muitos atributos físicos e poucos cognitivos. Numa leitura mais apressada o leitor seria até capaz de pensar que certos atributos insultuosos se tratariam mesmo de elogios. Não os são. Em que pese ser ele, Gilberto Freire, um dos poucos autores a aludir que os negros vindos para o Brasil nem sempre eram pessoas incultas, pelo contrário, em alguns casos eram bem mais cultos que os brancos que os governavam e isto foi causa de inúmeras revoltas, principalmente no Estado da Bahia.
É verdade que não devemos ler estas obras como se elas fossem escritas hoje, uma vez que Os Sertões e Casa Grande e Senzala foram mesmo revolucionárias quando foram escritas; cada uma à sua época. São de inquestionável longevidade, à proporção que seguem além, despertando o interesse de estudiosos até nos tempos hodiernos. Eu mesmo não posso deixar de confessar que estes livros foram imprescindíveis para aguçar o meu entendimento sobre a formação do povo brasileiro. E, além disso, nos levam à compreensão de diversos fenômenos sociológicos atuais. No entanto, essas são leituras que não podem ser feitas sem um mínimo de discernimento. Elas nos mostram que apesar do tom revolucionário que esses livros têm, os seus autores se deixaram impregnar com a cultura racista vigente e sobremaneira forte na época em que foram escritas. Infelizmente, e quem sabe a contragosto deles, nem mesmo eles escaparam.
Não há dúvidas que a cultura racista impede o nosso magnífico Euclides da Cunha de ver a igualdade entre os nordestinos e os sulistas mesmo quando aqueles sobrepujavam a estes. Foi da mesma forma, a cultura racista que levou Monteiro Lobato a dar um desfecho fúnebre para o livro O Presidente Negro. Não fosse mesmo esse laivo de infelicidade a literatura de Monteiro Lobato teria chegado muito além da sua imaginação.
Quanto ao livro Casa Grande e Senzala, eu o considero magnífico, de pesquisa extensa e até exaustiva, de um autor que escrevia com facilidade tamanha que nos prende ao texto de tal maneira que chega mesmo a determinar o nosso ritmo de leitura, levando-nos à interminável curiosidade pelo parágrafo seguinte. No entanto, essa facilidade de expressão e esse modo cativante de se comunicar e prender o leitor não autoriza o autor a inferências de cunho racistas, talvez, para ele, naquela época, imperceptíveis.

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