segunda-feira, 5 de março de 2012

Bem-te-vi a resistir a insensatez humana


Do rouxinol que voava entre as árvores do quintal da casa onde passei a minha infância eu só guardo a lembrança.  Se ainda existem são raros. Há quem diga que foram substituídos pelos pardais, mas como podem os pardais substituir os rouxinóis se destes não têm o canto, a beleza, o encanto?
Os rouxinóis são uma referência perdida da minha infância. Não ver rouxinóis nos lugares por onde eu ando é como chegar a Rosário e não ver a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, onde eu me batizei; ou me deparar com a inexistência do Grupo Escolar Joaquim Santos, onde eu estudei o primário (hoje ensino fundamental menor).
Mas nem tudo na vida são perdas. Durante todo o curso da minha vida ouvi o canto de um pássaro que para mim é o mais significativo símbolo de resistência da natureza – o bem-te-vi.
O bem-te-vi é um pássaro que carrega em si o signo da liberdade. Não atrai a atenção do homem para os rigores da prisão domiciliar nas nefastas gaiolas utilizadas por aqueles que habitualmente prendem pássaros para ouvir os seus cantos. Barbárie! Não percebem eles que qualquer ser que emita um canto de boa sonoridade cantará melhor se estiver livre, no seu habitat natural? Mas, não há do que se admirar quando se pensa na capacidade ou nos quereres dos seres humanos. Lembro de um professor da Escola de Agronomia do Maranhão que advertia-nos - “nós somos tudo em potencial”.
De repente nos surpreendemos com o canto de um pássaro que pode estar no galho de uma árvore ou no fio da rede elétrica. Seja de onde for ele entoa o canto irretocável bem-te-viiiii.
Provavelmente, o canto do bem-te-vi foi desde sempre a causa do desinteresse do homem em aprisioná-lo. Creio que os adeptos do aprisionamento dos pássaros de sonoridade exuberante ficavam desconsertados e, por isto, desconcertados, com o canto do bem-te-vi. Quando o bem-te-vi emite o seu canto, o homem o percebe como uma acusação, como uma desconsertante distinção por atos ecologicamente incorretos que os homens cometem desde os primórdios.
Então para que trazer para perto de si um pássaro que passa a vida a apontar o seu “dominador” com acusação do tipo:
- bem-te-vi a desmatar os espaços onde eu vivia e eu ainda resisti;
- bem-te-vi a erguer blocos de concreto onde outrora era mata que me abrigava e alimentava, e eu resisti;
- bem-te-vi a tocar fogo na mata abundante que abrigava a mim e outras tantas espécies e eu resisti;
- bem-te-vi a inundar as imensas áreas verdes, afogando entes que não voam e não nadam e eu resisti;
- bem-te-vi me atirando pedras com teus estilingues e outros projéteis com armas de fogo e eu resisti;
- bem-te-vi com os teus alçapões a oferecer-me frutas frescas com os teus ardis e eu resisti;
Bem-te-vi, bem-te-vi, bem-te-vi...Bem-te-vi, bem-te-vi, bem-te-vi...Bem-te-vi, bem-te-vi, bem-te-vi...
Se há um animal que tem uma plasticidade que historicamente lhe permite acomodar-se a um sem número de situações criadas pelo homem, este é o bem-te-vi. Hoje o bem-te-vi se urbanizou quase que definitivamente. Seu canto está no fio do telefone, na cobertura do apartamento, no arbusto que decora o jardim da casa, no telhado da casa, no terraço do apartamento.
Se pensa o homem que, com as suas ações ecologicamente incorretas, pode perseguir o bem-te-vi, saiba que a ação ou reação do bem-te-vi volta de ricochete, pois onde quer que esteja o homem o bem-te-vi seguirá o acusando, entoando um canto inconfundível que para sempre ecoará em seus ouvidos: bem-te-vi, bem-te-vi, bem-te-vi, bem-te-viiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii...

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sexta-feira, 2 de março de 2012

Preto Cunha disse...

Pena que não participei do grupo de estudantes que queriam se formar, pois logo fui para a Marinha, mas sempre que entrava de férias, vinha a São Luis rever os amigos, a Jane Mary de César de Bibi, é uma senhora muito bacana assim como o César.
Sabe Prego na segunda de carnaval nos encontramos na Turma do Saco.
Zé Costa,Cabeça, Chico Bahia, Laurindo, a Elzinha estava por lá, depois eu cheguei e soube que ZECO Kim esteve mais cedo e chorou quando viu tudo por lá, mais tarde chegou Jesus irmão de Elzinha, e o papo rolou por muito tempo acompanhado de umas cervejas, estávamos esperando a MITS, sair para o desfile, faltou você para completar, rolou muita conversa sobre as peripécias da turma no passado, estamos esperando uma confirmação sua para uma reunião, para conversarmos e contarmos algumas histórias do Codozinho.
Amigo, um abraço de Preto Cunha

24 de fevereiro de 2012 03:51

Baía disse...

Realmente meu caro amigo, é muito gratificante quando sem nos apercebermos, nos deparamos com alguém que ha muito não víamos, é só felicidade. Foi assim no dia que a nossa Turma do Saco desfilou, faltou você, César, Benedito..mas, estavam além de mim, Preto, Costa,Ratinho, Reginaldo, Bodinho, Pilu, a meninas de Bibi, Jibóia, Roberto Costa, Elzinha, Aparecida e esposo, Enfim, amigos tantos para sempre, eu era todo felicidade. Viajei anos luz quando vi aquela turma maravilhosa que fez e faz o nosso bairro eternizado, nosso Codozinho, Rua Euclides da Cunha, nossa rua branca. muito bom, domingo agora vai ter uma baita feijoada regada a velhas e gostosas lembranças, vais lá, não vais? Abraços.

28 de fevereiro de 2012 05:32

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Caros amigos Preto Cunha e Chiquinho Baía,
Este ano eu perdi o encontro com os amigos do Codozinho. Todas essas pessoas citadas por vocês são amigos muito queridos que eu adoraria encontrar. Mando um abraço grande para todos e agradeço-lhes por tomarem de mim a Página do LF, colocando-a a trabalho exclusivamente do Codozinho, ou de um Codozinho, uma vez que o Codozinho aqui falado não é exatamente o Codozinho que encontramos hoje quando vamos à Rua Euclides da Cunha. Estou feliz com tudo isso.
Quanto à reunião, marque a data e avise-me por favor. Me farei presente se Deus quiser.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Surpresa

Aquele momento feliz em que o inusitado positivo, feliz e, sobretudo, desejado, ocorre. De repente, você está numa rua à procura de um produto qualquer. Foi ao banco pagar uma conta, fazer uma retirada. De repente, aquela batida na sua costa e você vira e reconhece uma pessoa querida, um amigo, uma amiga, um parente, ente amado qualquer que você não via há muito tempo.
O olhar se enche, você nem está acreditando, não sabe se a abraça apertado, ou se contém apenas no aperto de mão. Não sabe se ri ou se chora de alegria, mas ali você sorrir e, involuntariamente, sente os olhos úmidos.
Enfim, o ar lhe enche os pulmões e você já recuperado exclama: - Poxa! Que bom te ver! Por onde você andou? Fale-me de você, conte-me tudo...
Risos involuntários, palavras de carinho, perguntas, ânsia de atualização da conversa. Ah, que bom falar da família, do emprego, da vida amorosa, ou conjugal, da vontade de re-encontrar...
Surpresa! O presente que desejamos desde sempre e nos chega pelo caminho inesperado, naquela hora em que estávamos com o pensamento longe, muito longe, pensando na resolução de um problema, na execução de um plano de mudança de vida, num novo empreendimento, uma nova empreitada, uma mudança qualquer, que instantaneamente nos absorve e como uma poderosa nave, nos transporta às suas próprias entranhas como se fora um planeta, quando tudo não passa de um construto mentalmente criado por nós mesmos.
Você por aqui? De repente um grito abafado na minha garganta ao me sentir revisitado por alguém. Coisa da mente, da poderosa e quase inexplicável mente. Sonhei com você, estava pensando em você, ontem pensei em você. Pensei que nunca mais iríamos nos ver, imagine como fico ao sentir-me revisitado!? Assim, entre a alegria e a interrogação, as pessoas vão se expressando, extraindo de si sentimentos essenciais, essências sentimentais, no afã expressão comunicativa daquele inexplicável momento.
Outras vezes, sequer passamos do “meu Deus!...”, “é você?”, “não acredito!”, ou simplesmente, “Ah!”... Há momentos em que não passamos de um abrir e fechar de boca sem conseguir pronunciar uma palavra. Normal? Perfeitamente normal, somos humanos e estamos sujeitos aos mais variados sentimentos, as mais diversificadas emoções.
Poucos têm a inspiração feliz de um Vinícius de Moraes, para cantar de forma tão bela a inusitada visita de um amor. E, assim tão desenvolto ele foi capaz de externar: “Você voltou/Meu amor/Alegria que me deu/ Quando a porta abriu/Você me olhou/Você sorriu/Ah, você se derreteu/E se atirou/Me envolveu/Me brincou/Conferiu o que era seu”.
Não me canso de admirá-lo pelo feito e, sempre que posso, faço da poesia de Vinícius de Moraes a expressão desses momentos inesperados, quando nos vemos revisitados por alguém, cuja presença nos seca a língua, a garganta sufoca e a voz prende-se às cordas do coração.








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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Entre o vestibular e o cursinho de Zeca Pilu


Era uma época de efervescência cultural. No Codozinho havia muitos jovens em idade de entrar para a universidade. Opções não faltavam: Engenharia Civil, Agronomia, Direito, Medicina, Pedagogia, Odontologia, Serviço Social, Letras, Matemática constituíam desejos de um conjunto de estudantes pobres, ou de classe média baixa, que moravam no Codozinho. Era um movimento de jovens estudando aqui e ali. Num vai e vem. Ouvia-se só os comentários: hoje vamos estudar na casa de Fulano, amanhã vamos estudar na casa de Beltrano.
Esta foi uma época marcada por um curso pré-vestibular que o José Henrique Franco de Sá (nosso querido Zeca Pilu, ou Zé Cabeça) fundou. O cursinho funcionava no andar de cima da casa de Walterloo, o pai do Zeca Pilu.
Foi nessa época que conheci uma moça magrinha de sobrancelhas bem marcadas, cabelos negros e lisos, sorriso farto, meiga. No bairro, toda vez que chega uma figura diferente, logo se pergunta: - quem é esta/e? Hum, essa é Jane Mary, mora lá em cima próximo da Praça da Saudade. Está estudando aí, com as meninas, para fazer o vestibular.
Nunca uma moça bonita fica sem os olhares da rapaziada. Todo mundo olha, mas faz que não vê, que é pra não demonstrar que está a fim. Na época o César de Bibi (como costumávamos chamar o César Viégas Guimarães) estava namorando como uma moça muito bonita, meiga e inteligente (Viviane, se não me engano), que morava na Rua do Passeio, mas estudava lá no Codozinho com algumas amigas de lá.
Com a vinda de um grupo de moças bonitas e estudantes do Colégio Rosa Castro, Jane Mary, que já as conhecia, ficou muito mais à vontade na Turma do Saco e no Codozinho. Depois, o César de Bibi abdicou do namoro com a moça da Rua do Passeio e já apareceu no bairro com a tal moça magrinha, de sobrancelha bem marcada. Aí começava um grande amor que desencadearia em casamento.
A Jane Mary se integrou de tal forma ao Codozinho e à Turma do Saco que parecia que já convivia conosco de longas datas. Vendia rifas, participava dos bingos, ajudava em tudo que podia. É uma sacolense de alta casta, de excelente cepa.
Logo Jane Mary foi aprovada no vestibular para o Curso de Ciências Contábeis e o bairro, como era o costume, comemorou muito.
Querida Jane, juro, não esqueci da sua altiva e intensa participação na Turma do Saco, mas, creia, é difícil falar de cada um dos nossos amigos, de per si. Um grande abraço!

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