terça-feira, 21 de agosto de 2012

Santa Inês: a política e a sociedade organizada


Foi dada a largada. Os partidos fizeram as suas convenções municipais, as coligações os conchavos, as coalizões estão consolidados e o povão já está discutindo: “este é bom, aquele é ruim”, “este é orgulhoso, aquele é popular”, “este fala com a gente, aquele não”, ou ainda, “fulano ganha porque tem dinheiro”, “fulano perde por causa das suas ligações”.
Para variar, a disputa política no interior do Brasil, quase sempre está polarizada numa disputar entre famílias tradicionais. Pessoas que, de modo geral são adeptas do patrimonialismo de que fala o autor Sérgio Buarque de Holanda, no seu famoso livro Raízes do Brasil, um clássico sobre a formação do povo brasileiro.
No âmbito municipal, as pessoas tratam a política como se fora algo pessoal, tão pessoal que mesmo quando abordada como uma ação coletiva, o coletivo torna-se simplesmente algo estritamente grupal, ou seja, todo discurso dá-se em torno de grupos majoritários que polarizam a disputa. Esses grupos, uma vez de posse ao poder executam a política que bem entendem e, de modo geral tratam a coisa pública como se fizesse parte dos seus patrimônios pessoais.
Nos palanques, os discursos são menos propositivos e mais desqualificativos, ou qualifcativos, de acordo com quem o faz e do lado para o qual aponta com elogios ou insultos. Isto é uma regra? Não. Esta é uma prática imutável? Também não. O povo gosta dessa prática? Não. Os políticos estão propensos a mudar essa prática? Sim, basta que a sociedade, por meio das suas organizações passe a cobrar dos políticos atitudes nesse sentido.
No tocante a disputa política em Santa Inês, duas perguntas podem contribuir para um debate político civilizado em torno desta terra. A primeira: O que é Santa Inês hoje? O que pretendemos que Santa Inês seja no futuro? Ora, essas perguntas são geradoras de inúmeras outras que estão intimamente relacionadas. O que pretendemos para a cidade no que diz respeito a emprego e renda? Que futuro os políticos pensam para a juventude? O que pensam em termos de segurança, saúde, previdência, educação, saneamento básico (esgoto e lixo, principalmente), meio ambiente, cultura?
O exercício da cidadania nos obriga a dirigir estas perguntas aos políticos locais, principalmente os postulantes da chefia do executivo municipal. É essencialmente, a partir do programa político e da história de vida de cada um deles que o eleitor deverá nortear o seu voto.
Este é o momento da sociedade organizada promover eventos em que cada um dos postulantes ao  cargo de prefeito municipal fale sobre o projeto político que tem para a cidade, especificamente, nos planos econômico, social, ambiental e cultural. É a partir da proposta de hoje que se erguerá a administração de amanhã. Se não se comprometerem agora com um programa político de governo, no futuro administrarão de acordo com a própria vontade, sem qualquer participação do povo. Ë alicerçado no discurso de hoje que serão feitas as cobranças de amanhã. Entretanto, se esse discurso for vazio, evasivo, baseado puramente na distinção inferiorizante dos adversários, nada sobrará que se aproveite para alavancar o desenvolvimento do município.

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domingo, 8 de julho de 2012


A humildade  brilha na festa de São João
Segundo o amigo José Henrique Formiga este foi o oitavo ano de participação da Maçonaria no arraial junino de Santa Inês. Destes pude participar de dois e constatei que se trata de uma festividade com uma organização ímpar. Em nenhum ano eu vi um caso sequer de violência, o movimento é imenso, as brincadeiras que fazem o espetáculo são da mais alta qualidade: boi de Morros, boi de Axixá, boi Barrica, quadrilhas, danças portuguesas, entre outras brincadeiras. Todas da mais alta qualidade. Aliada às brincadeiras citadas tem as apresentações musicais dos chamados artistas da terra: Papete, Beto Pereira, Erasmo Dibel e tantos outros.
A criançada aproveita para desfrutar de todo esse espetáculo junino e ainda dos brinquedos do parque de diversões sempre presentes nesses eventos. Nas barracas, comidas típicas diversas: vatapá, caruru, galinha caipira, carne de sol, arroz Maria Isabel, arroz de cuxá, baião de dois,  bode cozido, mingau, canjica, churrasco, comidas para todos os gostos.
No âmbito de toda essa alegria a humildade maçônica se sobressai da forma mais singular que poderia acontecer num ambiente junino. Enquanto a sociedade de Santa Inês se diverte, vários expoentes desta, obreiros sociais, pessoas de bons costumes irmanadas pelo elo que os ligam ao bem estar comum, no afã de arrecadarem recursos para ações filantrópicas, se revezam como garçons, cozinheiras, ajudantes de cozinha, caixa, controlador de fichas, distribuidor de bebidas, coletor de lixo e outras funções próprias de barracas juninas.
Ora, pelo que essa plêiade de expoentes sociais representa economicamente, bastaria que se fizesse  uma pequena quota e certamente se arrecadaria mais recursos que em quinze dias de trabalho numa barraca instalada no parque junino. Isto é óbvio, todos sabemos disso, como sabemos também que a nossa devoção pelo nosso padroeiro São João representa algo que está fora de cotejo com qualquer valor monetário que se possa pensar. E, sem dúvidas, é essa devoção que faz com que durantes quinze dias, médicos, empresários, bancários, militares, comerciantes, industriais, proprietários rurais, funcionários públicos, engenheiros, professores, veterinários e tantos outros profissionais se despissem dos seus bem talhados ternos e vestissem serenamente a camisa da humildade para dedicar algumas noites de trabalho a São João.
Vi pessoas comuns da nossa sociedade muito orgulhosas pelo bom tratamento que receberam dos garçons da Maçonaria. Ouvi pessoas revelarem a alegria por serem servidas pelo Dr. Fulano, pelo engenheiro tal, ou por um empresário. Observei pessoas receberem tratamento tão esmerado, pautado na boa educação, no respeito, na delicadeza, na elegância, nos bons costumes, de tal forma que, não raras vezes, quando iam sair elas procuravam os garçons que lhes serviram para se despedirem deles. O gesto, na verdade era mais que uma despedida simplesmente, para além disso, expressava a gratidão pelo tratamento recebido. Presenciei a alegria imensa exteriorizada por um empregado ao ser servido por seu padrão, ali, a serviço de São João, apenas um garçon.

O quadro ali me lembrou, em alguns instantes, a samba enredo A Praia Grande, que o grande poeta César Teixeira fez para a Turma do Quinto, que num verso dizia “tinha tanto rei vestido de mendigo/e tanto mendigo vestido de rei”. Como os versos de César Teixeira, igualmente lindo foi o gesto desses homens e mulheres de bons costumes, que num movimento justo e perfeito de filantropia, exercitaram serenamente sem parcimônia a mais elegante humildade junina. Exemplo esse perfeitamente seguido pelos jovens demoleys que de tanto entusiasmo contaminaram os seus pais, e assim, sob a confiança do dono da Festa, São João, se destacou a família maçônica quando, no meio de tanto brilho e toda a pirotecnia junina se cobriu com a fosca camisa da humildade, para bem servir a sociedade de Santa Inês.

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domingo, 17 de junho de 2012

Ressaca, monotonia, tédio...


Lembra da música Roda viva, do Chico Buarque? “Há dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu”. Não é sem sentido essa música, aliás, nada que o Chico faz padece de falta de sentido. Quem sabe ele já se sentiu assim, num dia desses em que amanhece com ressaca, sono, tédio, cercado por uma monotonia infinita, ou quase infinita.
Na televisão, programas sofríveis preenchem horas de soberbo vazio, de qualidade ínfima, eles não servem para qualquer distração. Mas, graças a Deus existem os amigos e, quando se tem eles, a coisa fica mais fácil porque o vazio que nos enche o peito pode no primeiro aperto de mão ceder lugar à alegria. Até tentei recorrer a eles, mas, os mais próximos estão a 240 Km de distância.
Ah, ainda bem que existe a internet e muitos dos meus amigos gostam de navegar nela, entretanto, eu não os estou encontrando. Devem estar nos bares, visitando parentes ou amigos, dormindo, curtindo uma ressaca, assim como eu sem vontade de nada. Que coincidência...
Ah, de repente, um filho meu entra no eme-esse-ene, legal, vibrei. Pensei: agora vou poder espantar esse tédio e bater um papo com alguém. Engano, redondo, redondíssimo engano. Eu o cumprimentei, ele respondeu, aí eu fui logo falando empolgado sobre uma poesia que li no blog dele. O cobri de elogios, em vão. Ele simplesmente manteve-se indiferente aos meus elogios. Pensei, esse negócio de elogios de pai não deve servir pra nada, ainda mais numa tarde de domingo.
Não desanimei, afinal, detesto o tédio, detesto mais ainda mantê-lo sem hostilizá-lo. O tédio não serve para nada, por isso deve ser hostilizado como uma barata que aparece na sala de estar, ou um rato que invade a nossa despensa. Detesto dar mole ao tédio, ele não merece isso. Para a ressaca, cada um tem os seus truques, os seus remédios, embora todos sejam de comprovada ineficácia é sempre bom acreditar na eficácia daquele que você nomeia como o da sua preferência.
Remédio para a o sono todos nós conhecemos o mais eficaz, mas a minha teimosia se negava a entregar-me a simples três horas de bom e sossegado sono. Para quem padece de insônia a noite é curta demais e o dia pode transformar-se num momento propício a disfarçados bocejos. O insone sempre reclama, a cada bocejo, de provável acometimento de quebranto, pura desculpa, mas, mesmo sabendo que basta dormir algumas horas ele prefere buscar uma benzedeira. Pura cara de pau, mas faz parte da crença e do ritual de quem sofre de insônia crônica.
Para remediar a monotonia, até que eu acho mais fácil, basta um bom livro, de autor bem humorado, bem divertido, desse que trata o humor com muita intimidade. Jorge Amado é leitura indicada para isso. Da segunda página em diante, o leitor começa a se divertir com os personagens de forma que parece que está assistindo a um filme em 3D. E até interage com os personagens: toma parte da história, apartando brigas, participando de serenatas, bebedeiras, noitadas no baixo meretrício. Outro remédio que eu adoto é a leitura dos escritos bem humorados de João Ubaldo Ribeiro. Ele é fantástico, traz o bom humor à ponta da caneta, ou, para ser mais moderno, à tecla do computador.
Bem, mas, se o tempo passar e você não conseguir fazer nada daquilo que você pensa que serve para combater a ressaca, a monotonia, ou o tédio, não perca espírito esportivo. Como bom brasileiro, satirize-se, faça uma piada do seu sofrimento, ria de si mesmo, como último recurso escreva sobre tudo que está ao seu redor, observando, contudo, o lado humorado que há em cada coisa, em cada pessoa, em cada relação real ou fictícia que esteja no âmbito da sua percepção. Lembre-se, nada de mau humor, ou ficar em crise como se tivesse com tê-pê-eme, afinal, o dia só tem 24 horas e, como disse o poeta citado, “amanhã vai ser novo dia”.

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sábado, 9 de junho de 2012

Mercado imobiliário vive distorção entre a procura e a oferta


Já faz algum tempo que eu observo os rumos do mercado imobiliário no Maranhão, de modo especial, em Santa Inês e em São Luís, principalmente. Leio artigos de especialistas e esses falam de bolha inflacionária desse mercado. Algo tipo, os preços são extrema e artificialmente elevados, quando o mercado não possui um excesso de dinheiro disponível para comprar os imóveis colocados à venda. Há uma demanda grande de imóveis? Há. Há uma grande quantidade de recursos disponíveis para a aquisição de imóveis? Não. De onde vem a maior parte dos recursos disponibilizados para a aquisição de imóveis no Brasil? Dos bancos oficiais, principalmente, da Caixa Econômica Federal.
Para as camadas populares, o governo federal desenhou o programa Minha casa, minha vida, as demais classes que precisam de recursos para aquisição da casa própria recorre aos bancos.
Os corretores de imóveis dominam todo o trâmite do processo de aquisição e têm na ponta da língua o passo a passo de todo o procedimento. Conhecem alguém aqui que facilita isso, conhecem alguém ali, que facilita aquilo, mas, tudo depende de dindin, é claro.
Mas, o que me causa estranheza no mercado imobiliário hoje é o valor dos imóveis diante da quantidade ofertada. Observem, as pessoas não possuem liquidez para a compra de imóveis e, há muitos imóveis disponíveis no mercado.
Hoje, a maioria das pessoas que desejam adquirir um imóvel, recorre à Caixa Econômica Federal, ou outro banco que disponibilize recursos específicos à aquisição destes.
Outro dado que me intriga da mesma forma, é que, de modo geral, o aluguel de um imóvel equivale a 1% do seu valor total. Contudo, quando se fala em compra, essa relação desaparece. Um imóvel cujo aluguel vale em torno de R$ 700,00 a R$ 1.000,00, é oferecido à venda por R$ 200 mil a R$ 300 mil. Por que isso está acontecendo? Há um fenômeno novo na economia brasileira que provoca o aumento do preço do produto com o aumento da oferta?
Qual é o fenômeno que regula o preço do aluguel? É a relação entre a demanda e a oferta, ou seja, o próprio mercado. Então, aí oferta e demanda se ajustam, pois de um lado está o locador com o seu imóvel e do outro está o locatário com o seu salário, a sua renda, seja ela qual for, mas, ninguém recorre mensalmente ao mercado de capitais para pagar aluguel. Note-se que a reclamação sobre a alta do preço do aluguel não é pequena, mas, ainda assim, quando o imóvel é oferecido à venda o seu preço duplica ou triplica.
Por que isso acontece? Basicamente, porque o mercado financeiro habitacional não empresta dinheiro para a pessoa que deseja comprar um imóvel, mas o oferta diretamente àquelas que o constroem. De fato, quando no Brasil o governo faz um programa de oferta de imóveis à classe média ou à classe de baixa renda, ele, o governo, não deseja satisfazer as necessidades dessas classes, mas, a da classe empresarial que os ofertará ou construirá os imóveis que as tais classes sociais desejam ou necessitam.
De onde vem essa prática? Vem do Brasil colônia, do Brasil escravista, que achava que os recursos do governo não devem ser repartidos com os pobres ou as classes menores, mas, deve ser um privilégio daqueles que fazem a maioria política, os da mais alta classe econômica, social e política. Porque, de acordo com a ideologia colonialista e escravista, estes sabem o que fazer com o dinheiro, estes são trabalhadores, estes têm pedgree para mamar na teta do governo, os demais não. Ah, mas, de acordo com a carta magna somos todos iguais em direitos. Daí a razão do dá aqui e toma lá. É preciso fazer de conta que todos temos os mesmos direitos. Como diz o Maquiavel, não basta ser, tem que parecer que é. É essa necessidade de parecer democrático que faz o governo emprestar aos pobres o dinheiro que ele, o governo carimba para ir diretamente para as mãos do rico.
Ah, então eu estou dizendo que o governo faz mal aos pobres quando disponibiliza recursos para a aquisição da casa própria, facilitando que as classes de baixa e média renda realizem o sonho da residência própria? Não, absolutamente, não. Estou dizendo que o governo quando age do jeito que sempre agiu, ajuda a inflacionar o mercado imobiliário, porque no Brasil há uma cultura de multiplicação dos preços dos produtos e serviços que sejam pagos com recursos oficiais – herança da nossa colonização. No caso do mercado imobiliário, embora esse dinheiro seja pago pelo adquirente do imóvel, mesmo assim, esse recurso é assimilado pelo vendedor como um recurso do governo que vai ser pago a perder de vista e por isso, ele eleva o preço do imóvel a níveis estratosféricos, multiplicando os seus lucros e deixando a dívida para o comprador.
O que se deve observar? Da parte dos Bancos, a relação valor do imóvel-aluguel permanece inalterada. Isto significa que o comprador vai pagar por muitos anos o valor correspondente a 1% do valor do imóvel. Só que agora não se trata mais de aluguel, mas da casa própria, o sonho da casa própria. O bom senso econômico diz-nos que uma pessoa pode disponibilizar para o pagamento de dívidas no máximo 30% da sua renda líquida. Logo, desembolsar R$ 2 mil reais ou R$ 3 mil reais mensalmente, faz o sonho de aquisição da casa própria tornar-se um pesadelo para o médio assalariado brasileiro.
Mas, o que fazer? Como mudar esse cenário? Ora, os bancos ao fazer o financiamento da casa própria daria maior poder de barganha aos tomadores de financiamento se transformassem o recurso tomado em carta ou cartão de crédito. Assim, o tomador iria ao mercado imobiliário e escolheria o imóvel fazendo proposta a partir de um valor real de mercado, fazendo o percurso no rumo inverso: primeiro ele tomaria os recursos no banco, depois compraria o imóvel. Enquanto isso, o recurso ficaria disponibilizado no Banco de modo a não perder o valor, podendo ser aplicado em um fundo de investimento no interregno em que o tomador procura o imóvel do seu gosto. O recurso disponibilizado poderia, inclusive, não ser utilizado todo, caso o tomador solicitasse um teto e adquirisse um imóvel com o valor abaixo do teto solicitado. Deste modo, creio, tal como no caso do aluguel os preços se ajustariam pelo movimento do mercado, quebrando assim esse paradigma nefasto de cobrar mais caro tudo que é pago pelo estado brasileiro.

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