sábado, 5 de janeiro de 2013

O bem e o mal, a luta eterna



Na nossa vida, sempre vemos e ouvimos estórias e histórias do bem contra o mal. Na infância nos deparamos com uma série muito extensa de estórias em que o bem e o mal se engalfinham e ambos passam por altos e baixos até que definitivamente o bem vença.
Nossos pais e avós enchiam as nossas imaginações com esse tipo de estória. Inventavam muitas delas para nos entreter, acalmar, ninar, adormentar. Eu que sou de uma família de antepassados pouco letrados, sei o quanto a memória oral é importante na transmissão de muitas dessas estórias. Lembro-me de antepassados como dona Surica, contadora de estórias, que ensinava todos os netos a ler, contudo, não os ensinava a escrever, porque não dominava a escrita, apenas lia. A escrita ficava por conta da professora da escola, ou da professora particular.
Nas comunidades negras, as estórias do bem e do mal eram passadas de geração a geração pela memória oral até que a escrita lá chegasse para escrevê-la ou que a televisão viesse enterrá-la definitivamente, ou substituí-la por estórias de heróis e anti-herois outros promovidos pela telinha.
O bem e o mal estão nas ações, nas palavras, no dia-a-dia, na nossa vida, enfim. Costumo dizer que na vida, o que falamos e o que fazemos é como uma bolinha de seringa que se joga na parede. Se for projetada com a força do bem, para o bem de quem a projetou, voltará com a mesma intensidade; caso contrário, se projetada com a força do mal, para o mal de quem a projetou, voltará com semelhante intensidade. Esta é a lição, o recado que as estórias que nossos ancestrais contavam nos emitiam.
Em outras palavras, a malvadeza e a maledicência são as guilhotinas que os malvados, ímpios e maledicentes constroem para si, quando, na verdade, equivocadamente, pensam ser para os outros

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domingo, 16 de dezembro de 2012

Coisas do meu tempo



Fico um tanto intrigado quando alguém se refere a mim falando de ”coisas do meu tempo”. Isso é coisa do seu tempo, aquilo é coisa do seu tempo. Jovens gostam desse tipo de comportamento. Às vezes creio que fazem para demarcar o próprio tempo, tipo “o seu tempo já passou, agora o tempo é meu”. Outras vezes, falam somente para avisar que a velhice já chegou, como se assim nos empurrassem para baixo do tapete. Você já está velho.
A velhice é incontestável, embora as pessoas usem de artifícios para adiar o envelhecimento. Cabelos brancos, rugas, flacidez da pele, perda de tônus muscular, diminuição ou perda da libido, entre outros, são sinais de envelhecimento que as pessoas teimam em camuflar, esconder, adiar. Para isso, usam de tratamentos clínicos, cirúrgicos, estéticos, alimentares. São muitos os recursos usados e, a sofisticação dos tratamentos varia conforme a classe social e, consequentemente, o poder aquisitivo.
Envelhecer faz parte da vida das pessoas e vivendo numa sociedade em guerra,  onde morre um elevado número de jovens, diariamente, por causas fúteis, nós ao invés de tratarmos a velhice com sarcasmo, devemos tratá-la com carinho, respeito e certa contemplação.
Mas, que coisa é essa de indicar um tempo para alguém que está vivendo no mesmo tempo que você? É como se tomar ciência e acompanhar a linha do tempo fosse algo que pertencesse apenas a algumas pessoas que vivem em determinada faixa etária. Muitas vezes ouvi pessoas comentando que fulano se entregou à velhice. Isso significa que essa pessoa abdicara dos prazeres da vida de tal forma que seus procedimentos endossam a tese do “já passou o seu tempo”. Sei de casos de casais que se separaram porque um dos dois achou que não tinha mais idade para amar, enquanto o outro não só se achava apto como ficava ávido para tanto. Contudo, se negava a buscar o amor fora do casamento, preferindo desfazê-lo a aderir à traição.
Hoje, as academias estão repletas de pessoas de todas as faixas etárias. Bares, restaurantes, cinemas, teatros, estádios de futebol, praias, clubes e tantos outros lugares de diversão estão repletos de pessoas de todas as idades. Evidente que lugares que se especializaram na prestação de serviços para determinada faixa etária. Isto faz parte do capitalismo. Empreendedores observam, aproveitam as aptidões que têm e dirigem seus produtos e serviços para pessoas de determinadas faixas de idade. No turismo isso fica muito evidente. Empresas que se especializaram no transporte, na recepção, ou na oferta de produtos ou serviços correlatos para jovens, adultos, idosos. Cruzeiros de navios para solteiros, casados, gays e assim por diante.
O mercado parece mais inteligente quando trata dos seus interesses. Não perde tempo discriminando A ou B, antes se dedica à percepção das necessidades, desejos e sonhos e, ora incrementa, ora cria demandas, ou as desperta, trazendo à tona aquilo que as pessoas aspiravam, entretanto sentiam-se inibidas a externar. Quebra tabus, esmaga preconceitos, extingue impossibilidades.
Observadas as limitações próprias dos diversos intervalos de idade, as pessoas estão aptas a fazerem-se mais felizes se divertindo, trabalhando, produzindo, criando, participando de aventuras, melhorando aparência, buscando a elevação da escolaridade, aprendendo outro idioma, ou uma nova profissão, fazendo o que bem entendem.
Parece que definitivamente as pessoas aprenderam que felicidade não tem idade e, perderam também o medo de ser felizes. Mais que isso, decididamente, vão buscar a felicidade em quaisquer formas em que se apresente, em qualquer lugar que esteja. Porque entendem que velho mesmo são as mentes pensam que a idade é impeditiva para se viver a vida. Definitivamente, só há um tempo para ser feliz, o tempo de duração da própria vida. Pois, se a velhice é incontestável, não é impeditiva. Viva a vida!

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sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Perdas


Confesso que tenho dificuldades com perdas. Quando criança, ainda em Rosário, na minha casa tinha um gato cujo nome era Mimi. Um dia o vizinho disse a minha mãe que o nosso bicho de estimação estava comendo os ovos das galinhas dele, e pediu permissão para exterminá-lo. Minha mãe tinha uma regra de boa vizinhança cujo corolário era: “com vizinho não se briga”. Esse vizinho era amigo da nossa família, provavelmente, foi em nome da boa amizade que a minha mãe abriu mão do nosso Mimi. Então, um dia o nosso vizinho entrou em nossa casa, com o consentimento da minha mãe, evidentemente, e com ele um atirador com uma espingarda pronta para matar o Mimi e, assim o fez. Daquela data em diante nunca mais criamos um gato na nossa casa. Nunca acreditamos na conversa do nosso amigo vizinho, nunca tivemos a coragem de substituir o Mimi na nossa casa e nos nossos corações.
Perder é um verbo que, de modo geral, não gostamos de conjugar. Ninguém gosta de perder, salvo algumas excessões, quando nos encontramos em alguma situação delicada ou indesejada. Um exemplo é o peso que nos sobra quando estamos acima da medida desejada, ou ideal. Nessa situação, quem não deseja perder peso? O medo também é uma das coisas que desejamos perder em algumas situações, muitas vezes, constrangedoras. Contudo, perder é algo que não se deseja, exceto em situções especiais.
Tivemos também um cachorro vira lata muito bonito, que o denominamos de Kiss. Um dia o nosso Kiss seguia a minha mãe na sua ida ao mercado municipal e, se perdendo dela, meteu-se em confusão com outros cães, então um açogueiro bateu-lhe com um machado nas costelas. Afetado pela pancada que levou, o nosso Kiss foi a óbito. Em relação a Kiss, aconteceu conosco o mesmo sentimento de quando perdemos o Mimi. Nunca mais quisemos criar cachorros.
Quatro anos após a morte da minha primeira mulher eu soube através de um amigo, que uma amiga estava com cancer no peito. Estava em Brasília quando recebi a notícia, lá eu morava, na época (2001/2002). Ali, naquele instante, de pronto me ocorreu a ideia de fazer uma música sobre o assunto. Logo eu escrevi um verso que seria o refrão da música que eu pretendia fazer e que, na minha cabeça, deveria ser intitulada de “Tambor de choro”, entretanto, a minha amiga faleceu e só onze anos depois eu consegui concluir a música.
Essas situações não são casos isolados, mas uma sequência de fatos que marcaram a minha vida e deixaram lacunas dentro de mim. Espaços que nem sempre eu soube ou não quis ocupar. Já até recorri à análise, mas logo eu percebi que estava num beco sem saída, ou num barco à deriva na imensidão do mar. Recuei e fiquei muito tempo sem pensar nisso, afinal eu não vislumbrava qualquer solução para o meu caso.
Mas, logo adiante, no caminhar da vida, deparei-me com a subtração de algo que lutei muito para conquistar – um lugar muito desejado na minha vida profissional. Falo de um concurso interno que participei no meu serviço no ano de 2008, se não estou enganado. Fiz uma prova objetiva muito difícil e fui aprovado. Depois fui convocado para uma entrevista quando gozava férias. Por isso fui informado que, se quisesse participar da entrevista teria que me deslocar para Belém com os meus próprios recursos. Assim eu fiz.
A entrevista constava de duas partes: uma dinâmica de grupo e a outra a entrevista propriamente dita, com diretores. As entrevistas eram realizadas em grupos de oito concorrentes. Os meus concorrentes foram unânimes em dizer que eu me destaquei diante deles. Fiquei na minha, mas tive o mesmo sentimento deles. Todavia o resultado não revelou o meu desempenho. Mais uma vez o chão me fugiu dos pés. Mais uma perda difícil, mas dessa vez eu resolvi que deveria fazer alguma coisa. Algo que me proporcionasse prazer, satisfação. Foi então que resolvi registrar os meus sentimentos, a minha opinião, regularmente. Tudo isto me fez aprender que ainda que nos retire o chão dos pés, não podemos admitir que reduzam o nosso horizonte, que baixem o nosso teto. Desde então, eu registro sentimentos e opiniões que me ocorrem determinados momentos. Essa espécie de grafoterapia me permite exteriozar sentimento em forma de poesia, crônica, artigo, música, na verdade são lenitivos que amenizam dores de perdas e subtrações sofridas.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Gonzaga – de pai pra filho, um filmaço



Nunca esqueci aquela conversa no Laborarte, entre o embrião do que é hoje o Centro de Cultura Negra do Maranhão – CCN e o sociólogo, Professor Dr. José Carlos Sabóia. Naquela ocasião houve depoimentos importantes, emocionados, sobre a discriminação racial, com os ingredientes que o debate sobre o assunto costuma ter.
O professor José Carlos Sabóia inicia a conversa dizendo: “O povo que não tem história está fadado a perecer”. Foi isso que eu lembrei na primeira vez que eu assisti ao filme “Gonzaga – de pai pra filho”. O filme é uma viagem do Gonzaguinha à Exu, não para re-encontrar com o pai, mas para encontrar-se consigo mesmo, recuperando uma história que todos falavam, que os jornais noticiavam, mas que os contratempos da vida subtraíra de si. A história que lhe pertencia, entretanto ele, Gonzaguinha, não a tinha vivido. Isto para ele era inconcebível, inadmissível e causa de um inconformismo que até o encontro entre os dois só fora externado na sua música.
Mas, é no encontro de pai e filho, que este, entre a revolta e o regozijo contido, vai se encontrando, recuperando o seu ser, a sua história feminina e masculina, ao saber quem é o pai e quem foi a sua mãe – ao tomar posse da sua grande família: avô, avó, pai, mãe. Não se pode perder de vista a vaidade humana, sobretudo, quando cintilam frente a frente duas estrelas, ainda que estas se amem. Gonzagão, a seu modo, se bastava na recuperação de uma história que nem mesmo ele teve tempo de contar para alguém, as estradas da vida e, consequentemente, da música eram muitas e ele via-se na obrigação de percorrer todas, porque para ele a matemática era simples – se aumentam as despesas com a família, o trabalho teria que aumentar na mesma proporção. Todos entendem a simplicidade aritmética do Gonzagão, porém, enquanto ele canta Brasil a dentro, deixa o vazio da sua presença na vida do filho e é esse vazio que a certo momento o crime ocupa e obriga a intervenção do pai. É para preencher esse vazio que Gonzaguinha vai à Exu, embora o motivo pareça outro – ajudar o pai.
Gonzaguinha tem um bom motivo para recuperar a sua história, para se estabelecer como um ser pertencente a uma família, a um coletivo de entes queridos, para dar materialidade ao seu sentimento de pertença até então não verbalizado, contido em seu peito, entretanto revestido por uma inquietude imensa, uma ânsia pulsante de responder a pergunta – “quem de fato sou eu?”. Sobre o pai a pergunta era outra: “Será que ele é mesmo o que dizem que ele é?”. Mas isso, só o encontro entre os dois vai responder e só quem dispuser a assistir a esse maravilhoso filme vai poder extrair dele as suas próprias conclusões.