terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Ano novo na Ilha

Após o cumprimento do dever entrei no vestíbulo do descanso, viajei para ilha de São Luís ao encontro da minha família.

Após oito horas e meia dirigindo em estradas mal sinalizadas, esburacadas, em alguns trechos com chuvas torrenciais que aditadas à falta de sinalização de pista nos encostava ao perigo.

É o Brasil. O país crescendo, a renda per capita aumentando, as pessoas viajando mais, comprando mais, transportando mais. Em síntese: estradas cheias. Final de ano, alta temporada de férias, um número enorme de automóveis e veículos de carga nas estradas. Gente que sai da sua terra para conhecer outros brasis, gente que volta à terrinha para matar a saudade da família e dos amigos, gente que se aventura em busca do novo, gente que retorna à terra natal para se re-encontrar com as especificidades, as tradições, os costumes, a cultura, renovando assim os elos de pertencimento.

Confesso que estava com saudades de São Luís e da região que considero como a Grande São Luís, que inclui toda a Ilha (São Luís, São José de Ribamar, Paço do Lumiar, Raposa) mais o portal do céu (Bacabeira) e o próprio céu, que também é conhecido pelo suave nome de Rosário.

Viajei ansioso, saí às 12 horas do serviço e me detive na contagem das horas e dos municípios deixados para trás. Atravessei na balsa de Tocantinópolis/TO à Porto Franco, no Maranhão e desde então fui contando: Lajeado, Grajaú, Barra do Corda, Presidente Dutra, Dom Pedro, Santo Antônio dos Lopes, Peritoró, Alto Alegre, São Mateus, Matões do Maranhão, Miranda, Santa Rita, Bacabeira e, finalmente, São Luís. Ah, que alívio, que bom re-encontrar os meus filhos que aqui estudam, meus familiares, compadres, parentes, amigos... Praia, calor humano, carnaval na Ilha, que inicia no primeiro dia do ano. Comidas: caranguejo, arroz de toucinho, cuxá, camarão, enxova, sururu, ostra... ah, que maravilha, essa ludovivência me faz feliz...

Mas nem tudo por aqui é maravilha, me dei conta que Ilha diminuiu... é isto mesmo, a ilha está pequena, agora que o Brasil descobriu as suas praias encantadas, a sua lata e fascinante cultura, a sua gente hospitaleira, os seus sobrados lindos, igrejas e outros monumentos históricos que enchem de beleza os olhos dos turistas de todos os brasis e de outros países.

No interregno em que os outros brasis descobriram este pedaço do Brasil, nossos governantes se esqueceram planejar e arrumar a casa para receber a importante indústria dos tempos hodiernos – o turismo. As ruas estão esburacadas, a segurança é escassa. Faltam salas de cinema, o teatro de Artur Azevedo, que em nossos tempos tem ícones como Tácito Borralho e Aldo Leite, não faz parte da programação turística. Não há espaços deste ramo da arte para as crianças. Por isso, quando o sol se recolhe lá da praia o Shopping São Luís fica impraticável, sufocantemente impraticável. Restam-nos as salas de cinema ali instaladas.

Eu que conheço um pouco do mar de cultura que fervilha na Ilha, fico triste em ver turistas entrarem e saírem daqui sem conhecer o teatro que se faz aqui no Maranhão, sem saber o que é o tambor de crioula, sem conhecer as coisas lindas que os autores da terra fazem na área da música, do teatro, da dança popular que aqui existe. O nosso patrimônio imaterial é rico, gostoso de apreciar e imprescindível para os filhos desta terra.

Governantes da nossa Ilha, por tudo isso, aproveitem agora enquanto as reclamações ainda são menores que as lacunas infraestruturais aqui existentes, e dotem esta maravilhosa Ilha da infraestrutura que o nosso povo merece, integrem a rede hoteleira à programação cultural, propiciem postos de trabalho aos artistas populares da Ilha e permitam que o turista quando deixar a Ilha vá satisfeito com o que comeu, maravilhado com o que viu, e com a alma renovada com o conhecimento da arte e da cultura do nosso Maranhão.

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domingo, 6 de dezembro de 2009

Natal, tempo de confraternizar

Já faz muito tempo que um grupo de amigos que se reunia sempre para bebemorar a amizade, resolveu, no período de Natal, fazer, digamos uma farra diferente. Uma farra de fraternidade, partilha.

Nada de cerveja, vodka, uísque ou qualquer outra bebida alcoólica, a farra seria mesmo de fraternidade. Queríamos nos embriagar de empatia, caridade, irmandade. Olhar irmãos que todos olham e não os veem no dia-a-dia. Assim fizemos.

Reunidos na casa de uma amiga, planejamos como se daria a nossa ação, em que direção ela seguiria, que irmãos seriam contemplados e em que lugar, entre outras coisas.

Dividimos as tarefas de acordo com o que cada pessoa poderia fazer. Combinamos que iríamos distribuir cestas básicas, roupas usadas, brinquedos, enxovais, o que desse para arranjar.

As cestas básicas seriam dadas de acordo com a possibilidade de cada um.

Pesquisamos os preços dos produtos no Bairro do João Paulo, um dos mais populares de São Luís. Ali o comércio atacadista é muito bom e os preços costumam ser ótimos para os consumidores.

Escolhemos e mobilizamos as famílias que receberiam os presentes. selecionamos famílias de uma palafita que fica no Bairro da Camboa e outras que se alojavam embaixo da Ponte Bandeira Tribuzzi. Fomos aos locais, conversamos com as pessoas, marcamos o dia da entrega e relacionamos cada família.

Tudo bem. Chegado o dia, fomos primeiro à palafita. Ali passamos de casa em casa entregando as cestas. Houve algumas pessoas que quiseram receber no meio da rua meio no tumulto, mas, dissemos de pronto: não há necessidade disso, passaremos em cada casa e entregamos os presentes. Tem o suficiente para todos, portanto, esperem em suas casas. E assim foi feito.

Dali fomos para debaixo da ponte Bandeira Tribuzzi, onde estavam várias famílias em estado de miséria absoluta.

Na palafita, as moradias eram precárias, mas existiam, as pessoas tinham abrigo e as condições mínimas de sobrevivência. Ainda que ínfimas, essas condições objetivamente existiam: abrigo, água, luz, móveis, outros. Embaixo da ponte não. Ali não existia qualquer condição. As pessoas não estavam em condições de moradia, estavam jogadas num lixão. Ali não existia água, luz elétrica, nada, nada, nada que propiciasse condições de moradia às pessoas que ali estavam.

Entregamos as cestas básicas e como as condições ali eram muito piores do que nas palafitas, resolvemos entregar as demais coisas para aquelas pessoas. E aí veio a parte que mais nos chamou a atenção. Começamos a distribuir enxovais, brinquedos e tudo mais. Estávamos sobre uma caminhoneta com carroceria que uma das integrantes do grupo arranjara.

Os brinquedos foram muito solicitados pelas crianças. Muitas os receberam e trataram logo de ir brincar. Entretanto, ali estava um menino que não se satisfazia com nada. Demos o primeiro brinquedo e ele pediu mais um; demos o segundo e ele não só pedia mais, como chorava aos berros: mais um, mais um, mais um. E aquilo foi se tornando algo tão incomum que o grupo incomodado, já não sabia mais a quem atender. As coisas ficaram difíceis, as pessoas aproximaram do carro e começaram a balançar como se o fossem revirá-lo. Aí pedimos calma, não nos apavoramos, tratamos de transmitir a maior paz possível e conseguimos concluir a entrega.

Foi dose pra leão, ficamos abalados com o desenrolar da missão. Voltamos pra casa, nos reunimos para avaliar a ação. As pessoas estavam satisfeitas, olhamos de perto algo que no nosso quotidiano vemos com a vista embaçada pelo nosso egoísmo, pelo narciso que se ocupa de cada um de nós, quando ensimesmados pensamos que os nossos problemas são os maiores do mundo.

Agora, com a visão clara, percebíamos que muitos irmãos, conterrâneos nosso ou não, estavam ali sem as mínimas condições de vida, vivendo na miséria, no lixo, sem distinguir ali quem era gente e o que era lixo. Lixo e gente se misturavam como peças de um mesmo cenário – a miséria.

Percebemos que a miséria não tem espaço para princípios, moral, ética, bons costumes, nada; ali “não há oxigênio” todos comungam a despressurização total, portanto, cada um avança no balão de oxigênio mais próximo. O ditado popular “farinha pouca, meu pirão primeiro” é o corolário da miséria. Ali, cada um trata de si enquanto Deus descansa... não há tempo para esperança...pessoas nessas condições chegam logo à insanidade física e mental.

Todos ficamos estupefatos, verificamos que o quanto mais a sociedade vira as costas para os irmãos em estado de miséria, mais a miséria bate às nossas portas de ricochete. As coisas funcionam assim: ofertamos aos miseráveis, o desprezo, a indiferença, a corrupção, o egoísmo, a discriminação social, a ganância, a usura e outros presentes correlatos e indesejáveis; recebemos dos filhos da miséria roubos, furtos, assaltos, homicídios, a droga, a violência em todas as formas e categorias de crueldade.

Foi então que ficamos sabendo: a miséria de cada irmão, a necessidade do nosso vizinho pobre, os problemas de todos os seres humanos em condições delicadas ou subumanas de sobrevivência, nos pertence também. Não convém, portanto, ficarmos enclausurados voluntariamente no nosso egoísmo enquanto lá fora a vida apodrece, porque mais cedo ou mais tarde o cheiro podre de tudo o quanto desprezarmos nos incomodará.

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terça-feira, 17 de novembro de 2009

O vinte de Zumbi no Brasil de Obamas...

Data de 1979 a minha primeira participação em eventos tipo Semana do Negro. Falo desses eventos que o movimento negro no Brasil promove com o objetivo de discutir as questões étnicas específicas do negro brasileiro. Racismo, preconceito racial, história do negro no Brasil, terras de preto (ou comunidades remanescentes de quilombos), arte, saúde, oportunidade de emprego, oportunidade de estudo, ascensão social, enfim tudo que significa cultura negra neste país.
De lá pra cá se deu significativa mudança na data desses eventos; antes eram realizados no mês de maio, agora são realizados em novembro. A troca de data se fundamenta no respeito pelo mais significativo símbolo da luta do povo negro contra o regime escravista no Brasil – Zumbi.
De certo modo, o desprezo pela data anterior pode significar certo menosprezo pela força do movimento abolicionista brasileiro, e ainda que às avessas, a valorização da Abolição da escravatura feita pela princesa Isabel, quando na verdade, tudo decorre de uma imensa e duradoura luta que se inicia com Ganga-Zumba, passando pelas triunfais batalhas comandadas por Zumbi dos Palmares, a proibição do tráfico negreiro, o movimento abolicionista, culminando com o desfecho da assinatura e publicação da Lei Áurea por uma princesa encurralada, sem outra saída senão aquela de declarar a Abolição.
A Abolição significou apenas a quebra dos elos de propriedade entre o negro escravizado e o antigo senhor de escravos. A liberdade, na acepção da palavra, é um ideal pelo qual lutamos até hoje.
Isso decorre da postura historicamente racista que se estabeleceu no país como um legado dos raivosos derrotados ex-senhores de escravos às suas sucessivas descendências. É como se toda aquela conjunção de fatores propulsores da Abolição lhes causassem tanta raiva que, sem alternativa, eles dissessem: - bem esses negros querem ser livres... que fiquem livres, mas sem os bens necessários para uma vida digna e decente. Assim eles jamais alcançarão o estado de cidadania plena e até se arrependerão da liberdade. Este será o preço da falta de indenização dos gastos que tivemos, com tráfico, com a aquisição deles e com a desvalorização das nossas propriedades...
Os fatos confluem, infelizmente, para a confirmação desse discurso tácito que persiste na relação da população negra brasileira com as forças hegemônicas no país que a todo tempo engendram novas e dissimuladas formas de racismo que se colocam como impedimentos ardis de ascensão social do negro brasileiro.
Vejam as quotas... quantos discursos contrários ao aumento da presença do negro nas universidades. Quantas formulações com disfarces cientificamente fundamentados só para nos dizer – “não, não aceitamos a elevação do número de negros nas universidades”, como se fosse um acinte sermos iguais, querermos lugares sociais que até pouco tempo eram privilégio apenas dos outros.
Agora me digam, o sofrimento dos negros africanos e suas descendências escravizadas no Brasil, durante quase quatro séculos de cativeiro foi menor que o holocausto sofrido pelos nossos irmãos judeus? Evidente que não. Esses eventos vergonhosos, asquerosos, devem ser sumariamente desestimulados na nossa civilização, condenando-se quaisquer indícios de posturas inclinadas a tanto.
Com relação ao sofrimento dos judeus a mais leve inclinação a negá-lo, em qualquer lugar do planeta, será prontamente repelida, repudiada, rechaçada, no que concordamos prontamente.
Quando tratamos da reparação aos diversos males sofridos pela população negra no curso da história do povo brasileiro, logo surgem os racistas de plantão, como nos velhos tempos, com os seus rotos discursos racistas mascarados de “embasamentos científicos e até ditos democráticos” sempre contrários a quaisquer benefícios que propiciem ao povo negro uma vida igualitária.
Discriminam-nos pela cor da nossa pele e nos igualam pela pobreza, como se uma coisa não estivesse ligada à outra. Daí o discurso de que somos discriminados por sermos pobres e não simplesmente pela cor da nossa pele. Mentira.
No Brasil, não raras vezes, nos discriminam até quando julgam nos igualar. O racismo, pasmem, é ardilosa e culturalmente disseminado neste país que nos últimos anos até o Estado tem criado formas peculiares de impedimento da ascensão da pessoa negra.
Vejam quantas secretarias ditas da igualdade racial neste país. O que significam esses entes governamentais edificados sem os necessários alicerces como se se destinassem a cuidar das necessidades do povo negro? Constituem instituições natimortas, portanto, inócuas, criadas sem estrutura de pessoal, sem orçamento e sem objetivos devidamente delineados, como se os empregos ali ardilosamente abertos satisfazendo necessidades imediatas de um pequeno número de irmãos negros, se constituíssem em benefício de todo um segmento social relegado ao desprezo, a invisibilidade. São, sobretudo, órgãos oficiais destituídos de poder, forma comprovadamente eficaz de imobilização de lideranças do movimento negro, que passam a atuar como almofadas que amenizam os choques entre a comunidade negra e o Estado disfarçadamente racista.
Lembro-me de um comentário de um negro, hoje ministro do Supremo, falando sobre um curso para negros postulantes a uma vaga no Instituto Rio Branco, que a Fundação Cultural Palmares apoiava. Aquele ilustre, naquela ocasião, num evento que acontecia num dos auditórios do Congresso Nacional, sugerira: “ora se o Itamarati deseja de fato ter diplomatas negros porque não promove negros como Carlos Moura, por exemplo. Ainda tem que esperar que esses rapazes e moças se formem”...
Percebam, o comentário vinha de uma pessoa que sabia o que estava dizendo. Na verdade, o Estado se provia de expediente que mais do que ajudar a integrar negros aos quadros da diplomacia brasileira, protelava este momento.
O raciocínio é simples: se temos um engenheiro civil negro competente que faz parte do movimento negro, ao invés de colocá-lo numa instituição especialmente feita para imobilizar lideranças do movimento negro, deve-se, ao contrário integrá-lo numa instituição compatível com a sua formação dando-lhe cargo e poder para daquela posição ajudar a comunidade negra, onde quer que ela se encontre.
Se temos um médico negro que entende das enfermidades que mais afetam a população negra, como a tuberculose, a hipertensão, a anemia falciforme, que a este seja dada a oportunidade e o poder para ajudar esse segmento da sociedade neste mister... e basta.
Ele saberá identificar essas pessoas nas filas dos hospitais, nos bairros em que residem e onde quer que estejam.
Ao invés disto, fundam-se instituições para negros, verdadeiros guetos oficiais, onde lideranças negras disputam nichos de poder, chegando não raras vezes ao “canibalismo”. Isto é ótimo para quem não deseja a ascensão social. Negro se jogando contra negro, movimento social se dispersando, fragmentando-se, cada liderança que se incompatibiliza com uma entidade, logo forma outra entidade e assim por diante. Chegando mesmo a ter líderes que têm entidades de uma só pessoa, o próprio líder, que no caso torna-se liderança de si mesmo.
Alguém poderia se contrapor ao meu argumento, dando como exemplo a presença, ou melhor a passagem de Gilberto Gil no Ministério da Cultura. Certo; não fosse esta uma exceção.
Num país como o nosso, dificilmente Barack Obama conseguiria ser presidente. Tantas seriam as dificuldades, tantas seriam as armadilhas retóricas que se muito ele evoluísse nesse sentido, chegaria a um Ministério desses sem qualquer poder. Isso se não lhe fosse arranjado um crime hediondo, como comprar sorvete na sorveteria do aeroporto com o cartão de crédito oficial.
Exagero? Então me diga porque mais de três mil comunidades negras rurais que há mais de século vivem e trabalham nas suas terras, em posse mansa e pacífica, jamais tiveram as suas terras tituladas? Porque o país teima em invisibilizar essas comunidades mesmo sabendo que centenas dela têm hoje laudo antropológico que provam a territorialidade desses grupos sociais? Porque somente as terras de negros e índios precisam de laudos antropológicos para ser reconhecidas, enquanto a maioria dos pretensos proprietários de terras só precisa de uma planta topográfica e uma precária escritura de compra e venda? O que é tratamento igualitário neste país?
No momento hodierno, as instituições brasileiras (mesmo o negro sendo minoria nas universidades) estão cheias de instituições com pessoas negras bem qualificadas ocupando cargos de nível incompatível ou inferior ao seu grau de instrução e, o pior, sendo chefiadas por gente sem qualificação adequada.
Não quero desanimar os irmãos negros, mas os alerto para a realidade atual, quando o bom nível de escolaridade já não constitui simples elemento de ascensão social. Além disso, é necessária uma conjunção de fatores, como por exemplo, influência política, que poucas pessoas negras possuem.
Se a sociedade brasileira quiser mesmo ver reinar neste país a tão propalada democracia racial, é preciso ir além dos discursos vazios, de nos comprazermos em ver o país evoluir como uma escola de samba que tem negros suando na bateria e puxando o samba para uma elite branca ser manchete como destaque da escola.

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domingo, 8 de novembro de 2009

Ucilas Aquino NETO, leitor atento, um conterrâneo amigo...

Fazer blog nos tempos hodiernos é mais que moda, é uma epidemia que se propaga pelo mundo pelas mais variadas razões.

O blog é também a via pela qual fluem infinitos modos de expressão. É a sociedade canalizando pela internet sua voz e vez, modos de expressões diversos, opiniões de pessoas que apesar do talento, não têm espaço na grande imprensa, encontrando no blog um veículo de comunicação livre, democrático, aberto.

Já falei sobre os motivos que tive para fazer a Página do LF logo nos primeiros escritos que publiquei este ano. E, de início, disse que nem esperava ser lido por alguém, em meio a essa avalanche de blogs e outras formas de expressão presentes na internet. Imediatamente, o meu filho, Paulo César, discordou de mim, orientando-me sobre as possíveis surpresas que este veículo de comunicação de vez em quando nos propicia.

Paulo César estava certo. Afinal, os jovens são exímios conhecedores das especificidades da internet e suas diversas vertentes. Nestes quase dois anos da Página do LF tive numerosas surpreendentes e agradáveis surpresas.

É para uma dessas que eu, neste momento, chamo a atenção dos amigos leitores. Recentemente, publiquei o artigo intitulado Rio de Janeiro, violência, ficção e realidade e tive a grata surpresa de merecer um interessante comentário do leitor, conterrâneo, contemporâneo e amigo, o engenheiro Ucilas Aquino NETO, que escreveu:

Caro amigo Luiz Fernando,

Primeiramente deixe-me reapresentar: sou Ulcilas Neto, filho de seu Ulcilas e dona Afair.

Saí do Maranhão em 73 e vim para o Rio, onde estudei, constituí família e trabalho desde então.

Já li boa parte de seu blog e quero parabenizá-lo pela excelente qualidade do que está publicado aqui. E confesso que aportando aqui fiz uma fantástica viagem ao passado, relembrando, no ritmo de seus textos, algumas passagens de nossa infância lá em nossa querida cidade de Rosário.

Infelizmente sou um espectador privilegiado dessa calamidade que você muito bem relata em sua crônica sobre a violência, ficção e realidade no Rio de Janeiro, pois trabalho numa indústria situada em área suburbana popularmente denominada “faixa de Gaza”: confluência das vias expressas Av. Brasil, Linha Amarela e Linha Vermelha. Concentra-se aí grande parte da violência da cidade. E do descaso também. Imagine, portanto, que vejo de perto o que você descreveu.

Por enquanto é só isso: queria reapresentar-me, parabenizá-lo pelo que você faz aqui no seu blog e comentar o quanto foi prazeroso reencontrá-lo mesmo que só virtualmente.
Grande abraço.

Neto, eu agradeço-lhe pela atenção. A internet tem esse papel de nos dar a sensação de habitantes de uma aldeia global. De repente, estamos aqui bem próximos, mesmo você vivendo aí no Rio de Janeiro e eu aqui em Tocantinópolis, no Estado do Tocantins. Comungando sentimentos, recordando laços identitários enquanto rosarienses e, concomitantemente, expressando a nossa opinião enquanto cidadãos do mundo. Procurei o seu endereço eletrônico para agradecer pelo comentário, mas não o encontrei apesar dos apelos recorrentes ao Google.

Neto, não poderia deixar de destacar a sua delicadeza, quando se reapresenta como filho da saudosa dona Afair e do seu Ucilas Aquino. Mesmo sabendo que podia prescindir desse procedimento, mostra que não perdeu a sua essência como pessoa calma, cautelosa, talentosa, culta e muito educada, que sempre foi e, pelo que posso depreender, continua sendo.

Caro amigo Ucilas Aquino NETO, saiba que fiquei muito feliz com o seu comentário, porém, a alegria do re-encontro foi maior. Desejo que este seja o início de uma sucessão de re-encontros.

Por tudo, envio-lhe um caloroso e forte abraço.

(luizfrlinhares@hotmail.com)
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