domingo, 21 de fevereiro de 2016

Batismo de trilha



Não sei precisamente a data em que comecei a pedalar aqui em Santa Inês. Sei que muito depois eu adquiri um ciclo computador, uma dessas engenhocas que medem a velocidade da bicicleta, a distância percorrida, a distância total de todos os percursos realizados, a velocidade média, a velocidade máxima, as calorias queimadas, o tempo gasto para concluir um percurso, entre outras funções.
As minhas pedaladas com ciclo computador já ultrapassam 800 Km. Essa é uma marca que eu considero referência desde agora, porque apesar de todas as pedaladas anteriores terem imensa importância na minha vida, só agora eu tenho um registro qualitativo e quantitativo desses eventos.
Hoje, por exemplo, pedalei cerca de 40 Km até o selim da minha bicicleta quebrar. Fomos de Santa Inês ao Lago do Caboclo Morto, em Bela Vista. Fizemos 24 Km de estrada e mais ou menos 16 Km de trilha. Meu Deus, que trilha marrenta. Na ida muita lama, terreno pesadíssimo, mas tiramos de letra. Na voita, sol das 10:00 horas, areia batendo na canela – voltamos por um caminho diferente. Consegui chegar a um posto de combustível, o mesmo em que cheguei há meses atrás, quando visitei Bela Vista pela primeira vez, e tive um pneu furado. Que coincidência, hein!? Ali, apesar do auxílio generoso do borracheiro, não consegui consertar o selim, foi o fim da viagem para mim.
Nem por isso, a viagem foi ruim, pelo contrário, eu a reputo como m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-a. Graças aos companheiros do grupo Pedala Santa Inês – Professor Jeorge (28), Matheus (18), Richard (17). Os companheiros dão show no quesito companheirismo e solidariedade. Parabéns rapazes! faço questão de agradecer a todos do grupo, inclusive, ao Roberts e ao professor Alex, que não puderam nos acompanhar hoje. Aos três primeiros, eu agradeço pelo batismo de trilha – foi top, foi show. Aos companheiros Roberts e Alex, manifesto a minha gratidão pela gentileza das dicas, como: altura do selim, ajustes ciclista/bicicleta, etc.. Muito obrigado. Muito obrigado a todos por me aceitarem no grupo. Esta é a minha primeira experiência em um grupo de ciclista. Pedalar em grupo é uma nova experiência e está interessante.
Hoje, a minha engenhoca (o ciclo computador) registrou a queima de 229 calorias. Como diria o maluco, “hoje o bagulho foi doido”. Teve lama pesada, areia pesada, engate de corrente, quebra de pedal, quebra de selim, entretanto, companheirismo e solidariedade de montão, teve ar puro, ar puro naturalmente perfumado pelo cheiro de eucalipto, banho no Lago, peixe saboroso e outros presentes divinos que o Grande Arquiteto do Universo reserva aos que se dispõem a acordar cedo e experimentar conhecer paisagens novas. Obrigado, companheiros! Muito obrigado, Deus!

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sábado, 13 de fevereiro de 2016

Brinquedinho



Na música “Maracatu atômico”, de Gilberto Gil, tem uma frase, para mim, muito significativa, pois, ela é reveladora do sentimento humano: - “ Em cima do guarda-chuva tem a chuva, tem a chuva, e tem gotas tão lindas que até dá vontade de comê-las”. O artista, nesta frase revela o sentimento humano que vai da admiração ao sentimento de posse. Do impulso, do instinto humano, que não se basta na admiração, mas, para além dela, quer possuir o alvo da sua admiração. Mais do que possuir, quer consumir. Como revela a música: “...gotas tão lindas que até dá vontade de comê-las”. Em síntese: - são lindas e eu as quero para mim.
Na vida, nada nos custa admirar, nada nos custa desejar a posse, ou almejar o consumo de alguma coisa que admiramos; mas daí até a posse, precisamos de poder para possuir alguma coisa. O poder de consecução daquilo que desejamos, nem sempre nos acompanha no momento exato que a desejamos. Às vezes, o interregno entre o desejo e a consecução é longo, muito longo. E foi em função desse tempo que me veio o conceito de “Brinquedinho”.
Há desejos de infância que são saciados já na fase adulta, quando, aparentemente a pessoa nem precisa mais possuir, ou consumir aquilo que desejou. Entretanto, subjaz na sua memória o antigo desejo, como se fora uma fome específica de um nutriente, que só será saciada com a ingestão deste, não importa o tempo que passar. O desejo guardado na mente jamais se apagará da memória sem a posse, sem o consumo. Não basta olhar, a menos que este olhar sacie o desejo de posse, seja o próprio consumo. Os casos das viagens, por exemplo. A pessoa desde criança sente vontade de viajar para tal lugar, mas nunca teve poder para concretizar o seu desejo, contudo, numa outra fase da vida ela conseguiu poder suficiente para ir conhecer o lugar desejado, e foi, realizou o seu desejo, satisfez o sentimento de posse, tirou de si o vazio de realização, consumiu com o olhar e, ou com outros sentidos aquilo que desejou a vida inteira. Pronto! Ganhou, comprou, possuiu o seu “brinquedinho”.
Lembra daquele fusca envenenado, que o fulano fazia cavalo de pau, com rodas tala largas, rebaixado e, etc. e tal? Ele admirava tanto, desejava tanto ter um daquele, mas, naquela época, era apenas um menino pobre. Agora como profissional realizado, adquiriu poder suficiente para comprar dezenas de carros modernos e já os tem. Mas, do que adianta? Ele não se completará se não tiver o seu brinquedinho. Por isso, ele o procura, compra e realiza o seu desejo, sacia a ansiosa vontade de possuir esse bem, essa vontade que carregou durante a sua existência.
Outras vezes o “brinquedinho” é apenas uma roupa de frio que o seu ídolo vestiu e lhe deixou o desejo na mente para toda a vida. Um dia você vai e compra, quando já nem precisa mais daquela roupa, pois ela nem combina com o lugar onde você reside, mas, o que importa? O importante é ver o seu brinquedinho adquirido. Os brinquedinhos são atemporais, não obedecem aos parâmetros modais e, constituem, mais que qualquer outra coisa, a satisfação de uma vontade contida por algum tipo de necessidade impeditiva da sua obtenção num determinado momento da vida. Simultaneamente, a sua obtenção significa a demonstração de um poder de posse, uma realização, a satisfação de um desejo sem o qual a pessoa não se achará completa, satisfeita.
Este é o meu conceito de “brinquedinho”. Você deseja ter algum brinquedinho? Já concretizou a aquisição de algum brinquedinho? Conhece alguém que tem, ou tem vontade de ter?

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Crônicas das pedaladas 4



Em 2003, quando retornei de Brasília para São Luís, fomos morar no condomínio Barra Mar, no bairro do Calhau. Ali alugamos uma cobertura e nos instalamos. Naquela época, tínhamos quatro crianças em casa e precisávamos de alguém que nos ajudasse nas tarefas domésticas. A Sílvia anunciou no condomínio a nossa necessidade e alguém nos recomendou a Maria, uma empregada doméstica que já havia trabalhado em um condomínio próximo e era uma pessoa de confiança.
Maria era, de fato, uma pessoa de confiança, trabalhadora, cumpridora dos seus deveres. Por isso a Sílvia e todos na casa gostavam muito dela. Era uma interiorana de Miranda do Norte que emigrou para a periferia de São Luís. Vivia em um daqueles bairros violentos, entre os bairros Olho D´Água e Araçagi. Morava de aluguel em um quartinho. Um cubículo multifuncional, cujo uso ia de lavanderia a dormitório. Mas chamava a nossa atenção pelo seu bom humor, pontualidade, destreza, tempestividade, habilidade culinária e senso de arrumação de tudo que havia na casa. Pessoa nova, uns 30 anos ou menos naquela época, gostava de se divertir, tomar uma cerveja no fim de semana, mas deixava-nos muito tristes quando chegava à nossa casa com o rosto cheio de hematomas. Coitada! Mesmo cheia de dores, trabalhava de bom humor, embora em algumas ocasiões pedisse para sair mais cedo, ou a Sílvia, quando via o seu estado, pedia de imediato que ela procurasse médico e depois fosse repousar. Uma realidade triste, que graças a Deus, hoje é combatida com veemência, graças a Lei Maria da Penha.
Um dia Maria chegou atrasada e foi logo justificando que daquele dia em diante seria sempre assim, a bicicleta que ela usava para chegar ao serviço estava toda desmontada e, de tão velha o conserto seria caro demais para ela pagar. Daquele dia em diante trabalharia com o objetivo de juntar uns trocados para comprar outra bicicleta. Para não dar “de mão beijada”, como falava a minha mãe, uma bicicleta nova para a Maria, pedi que ela me vendesse a bicicleta dela do jeito que estava, que eu lhe daria dinheiro suficiente para comprar outra. Assim foi feito, um dia Maria chegou com um saco de estopa cheio de peças de bicicleta e eu a paguei, de forma que de imediato ela comprou outra bicicleta.
Procurei um mecânico de bicicleta lá no bairro do Vinhais, nas imediações do Cemitério, e o solicitei um reparo total daquele monte de peças, pintura do quadro, de modo que a bicicleta parecesse nova. O cara fez tudo conforme eu pedi, mas nem usei muito a bicicleta em São Luís. Em junho de 2004 fui chamado a assumir o cargo de agrônomo no Banco da Amazônia, no Estado do Tocantins, na cidade de Tocantinópolis. Ali eu a usei mais. De vez em quando eu pedalava ao lado do meu filho mais novo, outras vezes eu pedalava sozinho, mas esporadicamente. A verdade é que durante esses doze anos que possuo essa bicicleta, ela ficou muito tempo sem uso.
Em 2010 vim transferido para Santa Inês e a usei uma ou duas vezes e a coloquei de volta na despensa. E, somente, em meados deste 2015, após a minha desilusão e até angústia decorrente da minha experiência em academias resolvi tirá-la do “estaleiro” e, concomitantemente, comecei a ler sobre o ciclismo de estrada, especificamente. Como escolher a bicicleta apropriada para o seu tamanho? Qual a bicicleta específica para as diversas modalidades de ciclismo? Quais são as peças de uma bicicleta? Cuidados que devem ser tomados quando o ciclista vai pegar a estrada. Quais as possibilidades e diferenças entre bicicletas aro 26, aro 29 e as novas aro 27,5. Fabricantes de peças, especificidades do ciclismo de estrada.
Tive também a oportunidade de conversar com o ciclista Marinho, vizinho dos meus sogros, Luis e Moema Aranha, no condomínio Barra Mar,  também praticante do ciclismo de estrada, que o meu querido amigo/irmão Átila Roque chama de ciclismo da selva urbana, pois ele pratica em São Luís naquele trânsito maluco, entre carros e motos. Em meia hora de papo, o Marinho me ensinou muita coisa e me indicou sites especializados no assunto. Valeu, Marinho!
A partir dessa conversa e das leituras que tenho feito em páginas especializadas eu dei uma pequena incrementada na minha magricela. Pintei-a novamente, troquei o cassete de sete, por um de oito marchas; mudei os cubos, coloquei cubos com rolamentos que deixam a bicicleta mais leve. Troquei os passadores e os manetes dos freios, que eram velhos, por um conjunto da marca Shimano. Troquei o selim que era duríssimo, por um selim mais macio, coloquei nos pneus fitas anti-furos. Passei a usar bermuda de ciclista, que ameniza o impacto do glúteo no selim, passei a usar luvas, pois o Marinho disse-me que este é um equipamento muito importante em casos de quedas. Comprei também os faróis de sinalização dianteiro e traseiro, além de um ciclo computador. Troquei as rodas por um tipo mais leve e mais atual, com raios mais finos.
A minha bicicleta não é do tipo speed, muito menos do tipo montain bike, é uma bicicleta comum dessas que os trabalhadores do Pindaré usam para chegar ao trabalho. Eu apenas fiz essas adaptações, tomando o cuidado para não descaracterizá-la.
Quando eu comecei a pedalar com ela no seu estado “original”, a velocidade máxima que eu alcançava era de 33 Km/h; hoje, de acordo com o ciclo computador, eu já alcancei a velocidade de 47,8 Km/h, justamente, nesta última viagem que eu fiz até o município de Igarapé do Meio. Confesso que quando vi o velocímetro mostrando que eu estava ultrapassando a marca dos 40, eu fiquei muito feliz, muito entusiasmado, muito emocionado. Creio que isto me ajudou a superar as minhas limitações físicas. Claro que eu adito a esta aquele cumprimento do motoqueiro que me deu o título de cidadão do Pindaré.
Nem preciso falar da minha satisfação, todos percebem que a minha magricela é o brinquedinho que eu descobri aos 58 anos de vida. Prometo que na próxima vou falar para vocês sobre o meu conceito da palavra brinquedinho.
Tenho a pretensão de deixá-la, pelo menos, dois quilos mais leve. Pretendo alcançar esse objetivo com a substituição de algumas peças por outras feitas com materiais de menor densidade. Apesar de pretender ter uma bicicleta mais moderna, no futuro, a médio prazo; no momento estou curtindo a minha magricela tradicional. Paixão mesmo!


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quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Crônicas das pedaladas 3



Creio que todo mundo que pratica um esporte tem alguma causa que lhe levou a isso. A necessidade de correção da postura, ajuda na cura de uma doença, como meio de canalizar energia de forma positiva para uma atividade, ou habilidade, apenas para sair do sedentarismo e tantas outras causas.
Durante a infância e a adolescência eu pratiquei alguns esportes e gostava muito de todos eles: futebol, futebol de salão, basquete, caratê, tênis de mesa. Aprendi a nadar no Rio Itapecuru, do qual morava à margem. Como todo dia banhávamos naquele rio e todos os meus colegas nadavam, experimentei as primeiras braçadas de forma muito original. Não lembro o que fiz de errado, mas a minha mãe nunca deixava barato quando eu brigava na rua, chamava palavrão perto de alguma pessoa mais velha, ou deixava de cumprir uma ordem dela. Lembro-me que estava banhando na beira do rio e ela chegou furiosa mandando que eu subisse a rampa porque naquele momento eu ia apanhar uma surra. Entrei em desespero e me aventurei nas primeiras braçadas para o meio do rio. Quando ela percebeu o perigo que eu corria nadando daquele jeito, no velho Itapecuru, ela entrou em desespero e começou a pedir que eu voltasse. Voltei e não apanhei naquele dia, quando percebi que sabia nadar. Gosto de nadar, acho a natação um esporte maravilhoso e passei a admirá-la mais quando os meus dois primeiros filhos praticavam esse esporte num nível quase profissional.
O ciclismo nunca esteve na minha vida como uma possibilidade de prática esportiva. Na Rosário da minha infância, era comum as famílias possuírem uma ou mais bicicletas em casa. As marcas Monark e Caloi dominavam o mercado. A minha casa era muito frequentada, as pessoas chegavam e estacionavam a bicicleta na calçada e, enquanto elas conversavam com a minha mãe, eu pegava as bicicletas e me aventurava a pedalar nas ruas de areia ou piçarra daquela época. Assim foi que eu aprendi a me equilibrar sobre uma bicicleta.
Minha paixão pelo futebol nunca diminuiu, ainda gosto de jogar bola, mas na minha condição física e com o sobrepeso que tenho, além de não render nada, me exponho facilmente a lesões musculares quando jogo bola.
Exercitar-se em uma academia passou a ser uma alternativa para pessoas que pretendiam melhorar a forma física para praticar algum esporte, ou mesmo para sentir-se de bem consigo mesmo. Entretanto, depois que inventaram o tal de personal trainer algumas academias deixaram de dar a devida atenção para os seus “alunos”, passando a tratá-los como meros locatários de aparelhos para a prática de exercícios físicos. Horrível!
Tentei a hidroginástica numa academia excelente que existe aqui em Santa Inês, mas aí o problema foi meu. Não me adaptei a esse tipo de exercício físico. Gosto de nadar, porém não posso dizer o mesmo da hidroginástica.
Para a caminhada que eu gosto também, me ressinto da falta de lugares apropriados para essa prática de exercício físico aqui. Foi pela desilusão com as academias e a necessidade intrínseca que sinto de me exercitar que acabei recorrendo a uma bicicleta que eu comprei de segunda mão há mais de 12 anos. Estava encostada na despensa, com os pneus secos, muita ferrugem, necessitando de uma boa manutenção. Foi a esse objeto que eu recorri e deu no que deu. Na próxima eu vou falar apenas desse objeto, que agora eu chamo carinhosamente de minha magricela.

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