segunda-feira, 7 de junho de 2010

O racismo quase involuntário na literatura brasileira

Só para que se tenha ideia de quão forte e hegemônico era o pensamento racista entre grande parte dos intelectuais dos séculos XIX e XX, percebemos que nomes como Euclides da Cunha, Monteiro Lobato e Gilberto Freire, cujas obras literárias são de inequívoco valor para entendimento da história da sociedade brasileira, são acometidos de lapsos de cunho racista, quando tratam em suas respectivas obras deste assunto. Falo especificamente, de Os sertões, O presidente negro e Casa grande e senzala.
O magnífico Euclides da Cunha, quando explica os sertanejos como se constituíssem um grupo étnico, com tipo físico que seria, segundo ele, determinado geograficamente, definindo-os como uma raça menor, em que pese o plano intelectual altíssimo da sua narrativa, vê-se atrapalhado ao constatar a superioridade destes sobre as forças oficiais do exército brasileiro.
Monteiro Lobato, outro monstro sagrado da literatura brasileira, na tentativa de construir uma obra literária que o eternizasse junto ao povo norteamericano, cria um presidente negro natimorto. Numa narrativa espetacular é capaz de criar uma trama em que um discretíssimo cientista cria um instrumento denominado porviroscópio, por meio do qual é capaz de ver os acontecimentos futuros em qualquer plano geográfico da terra. O tal cientista ver se eleger nos Estados Unidos da América um presidente negro, entretanto, antes mesmo de assumir o cargo o tal presidente morre. Monteiro Lobato foi desaconselhado a editar o tal livro nos Estados Unidos. Quem sabe por que nem mesmo na ficção teve a coragem de olhar além dos limites do racismo.
Gilberto Freire faz extensa pesquisa, compilando documentos do Brasil escravocrata, enfocando a relação entre senhores e escravos, mostrando os interstícios da relação entre a casa grande e a senzala. Acredito na necessidade da leitura de Casa grande e senzala, para que se entenda melhor a formação do povo brasileiro. Numa narrativa singular, que torna a leitura agradável aos olhos do leitor, Freire, entre um parágrafo e outro, trata o negro brasileiro como um ser de muitos atributos físicos e poucos cognitivos. Numa leitura mais apressada o leitor seria até capaz de pensar que certos atributos insultuosos se tratariam mesmo de elogios. Não os são. Em que pese ser ele, Gilberto Freire, um dos poucos autores a aludir que os negros vindos para o Brasil nem sempre eram pessoas incultas, pelo contrário, em alguns casos eram bem mais cultos que os brancos que os governavam e isto foi causa de inúmeras revoltas, principalmente no Estado da Bahia.
É verdade que não devemos ler estas obras como se elas fossem escritas hoje, uma vez que Os Sertões e Casa Grande e Senzala foram mesmo revolucionárias quando foram escritas; cada uma à sua época. São de inquestionável longevidade, à proporção que seguem além, despertando o interesse de estudiosos até nos tempos hodiernos. Eu mesmo não posso deixar de confessar que estes livros foram imprescindíveis para aguçar o meu entendimento sobre a formação do povo brasileiro. E, além disso, nos levam à compreensão de diversos fenômenos sociológicos atuais. No entanto, essas são leituras que não podem ser feitas sem um mínimo de discernimento. Elas nos mostram que apesar do tom revolucionário que esses livros têm, os seus autores se deixaram impregnar com a cultura racista vigente e sobremaneira forte na época em que foram escritas. Infelizmente, e quem sabe a contragosto deles, nem mesmo eles escaparam.
Não há dúvidas que a cultura racista impede o nosso magnífico Euclides da Cunha de ver a igualdade entre os nordestinos e os sulistas mesmo quando aqueles sobrepujavam a estes. Foi da mesma forma, a cultura racista que levou Monteiro Lobato a dar um desfecho fúnebre para o livro O Presidente Negro. Não fosse mesmo esse laivo de infelicidade a literatura de Monteiro Lobato teria chegado muito além da sua imaginação.
Quanto ao livro Casa Grande e Senzala, eu o considero magnífico, de pesquisa extensa e até exaustiva, de um autor que escrevia com facilidade tamanha que nos prende ao texto de tal maneira que chega mesmo a determinar o nosso ritmo de leitura, levando-nos à interminável curiosidade pelo parágrafo seguinte. No entanto, essa facilidade de expressão e esse modo cativante de se comunicar e prender o leitor não autoriza o autor a inferências de cunho racistas, talvez, para ele, naquela época, imperceptíveis.

Obrigado por comentar.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Conversa entre pais e filhos IV

Cuidado com as classificações. Desculpem-me filhos, mas é necessário eu falar – cuidado com as classificações. Sejam cuidadosos com os seus amigos, não os classifiquem com expressões pejorativas, desclassificantes, dessas que causam pejo às pessoas. Minha mãe, dona Joana, sempre nos lembrava: quem tem vergonha, não envergonha os outros.

Do mesmo modo, não permitam que pessoas quaisquer lhes atribuam esses tipos de des-classificações. Não as autorizem, pelo contrário, desautorizem-nas terminantemente.

É comum nos espaços coletivos que frequentamos encontrarmos pessoas que atribuem a si a descabida autoridade para classificar pejorativamente as outras. São as conhecidas gaiatas, engraçadinhas, brincalhonas, que adoram provocar risos no grupo somente para chamar atenção. Para tanto, elas atribuem as mais diversas e esquisitas denominações às pessoas do seu convívio. São os tais apelidos.

Jovens não raras vezes são impulsivos... coisa da idade..., uma fase da vida em que as pessoas estão super-energizadas e vão fazendo coisas após coisas antes de qualquer reflexão. Às vezes fazem coisas brilhantes merecedoras de ovações, às vezes fazem coisas de mau alvitre que podem ser prejudiciais a si próprios, outras vezes fazem ou dizem coisas prejudiciais a outrem. Aí está o perigo. Cada pessoa tem um tipo de reação a esse tipo de investida. Uns se irritam e demonstram na hora; outros mais eufóricos partem mesmo para a agressão física ou verbal em retaliação à agressão sofrida; uns até acham graça; há os que se mostram indiferentes, entretanto, há pessoas que ali, no momento não esboçam qualquer tipo de reação, contudo, no seu íntimo se processam reações tão desgastantes que podem lhes causar prejuízos por toda vida. Há ainda, aquelas pessoas que guardam aquele momento amargo da sua vida no freezer, com tanto rancor, com tanto ódio, sem jamais distinguir ser aquele apenas um momento da juventude, uma brincadeira de amigo, um colega de classe que fez aquilo num impulso momentâneo. Ao contrário, essas pessoas congelam na memória todo o sofrimento que sentiram naquele dado momento e, com ele, o ódio da pessoa que a constrangeu, como uma fotografia irretocável com todos os defeitos explícitos que nem mesmo o tempo foi capaz de removê-los.

Outras pessoas se deixam impregnar de determinadas denominações depreciativas de tal forma, que passam o resto da vida lutando no sentido de provar a elas mesmas que não são aquilo que alguém certa vez lhes apelidou; não têm aquele defeito que alguém lhes atribuiu; são capazes de superar aquilo que alguém disse que não seriam capazes... e por aí vão...

Mas, para que apelidos se eles são tão constrangedores, que são capazes de constranger até mesmo a pessoa que os criou?

Amizade é para ser conservada, zelada carinhosamente. A inimizade não deve ser cultivada, por isso, evitem-na. Se alguém não nos serve como amigo, nem por isso deixa de desmerecer o nosso respeito.
Obrigado por comentar.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Conversa entre pais e filhos III

Os pais sempre chamam a atenção dos filhos para que façam o plano de voo deles, que neste caso, podemos apelidar também de plano de vida. Quem na vida tem um plano de voo, não entra em rota de colisão à toa, nem se perde na vida à deriva. Usa régua, esquadro, compasso e lápis, que os pais lhes deram de graça, para traçar os trajetos que terá que percorrer para alcançar os seus objetivos nessa nossa breve passagem pela terra.

Quando falamos dos instrumentos necessários para que os filhos desenhem os seus planos de vida, estamos nos referindo a princípios, cuidados, observações, sugestões, ações exemplares, atitudes, virtudes que os filhos vivenciam na relação cotidiana com os pais.

A nossa história familiar deve ser conduzida como uma bússola, nela se registra as posições vivenciadas pelas gerações que nos antecederam. O desenvolvimento do que somos hoje se deve, em parte, pelo modo como caminharam os nossos antepassados. Se eles não existissem, provavelmente nós não estávamos aqui agora falando da importância dos laços da família.

Dizem os sábios que a pessoa que não conhece, não possui ou despreza a sua história de vida está fadada a perecer enquanto grupo social ou parte deste. Por isto a nossa história de vida tem significado relevante no nosso desenvolvimento. Embora, de modo geral, a história de cada família se transmita de geração a geração por meio da oralidade, fotografias, pertences, documentos deixados pelas gerações passadas, ela possui elementos balizadores da nossa conduta. Através dela podemos aprender com as virtudes e os erros vivenciados pelos nossos antepassados. Aí está o elo do passado, com o presente e o futuro. O passado que nossos parentes mais próximos viveram, o presente em que atuamos e futuro que desejamos alcançar pondo em prática o nosso projeto de vida.

De posse da nossa história familiar, devemos tirar proveito de tudo que nos fortalece na caminhada que traçamos com vistas a atingir o grau de consecução máximo dos nossos objetivos. Do mesmo modo, devemos nos desviar dos erros e dos danos deles consequentes vivenciados pelos entes consanguíneos que nos antecederam. Nem seria preciso lembrar que para se realizar planos devemos nos perguntar: o que queremos fazer da nossa vida? O que queremos ser e/ou alcançar no futuro? O que devemos fazer para realizar as nossas finalidades? Como devemos nos comportar para conseguir o que desejamos? Saibam que de nada adianta dizer “eu quero ser isto, ou eu desejo conseguir aquilo” e não conduzir a sua vida em consonância com os seus objetivos. Tudo na vida tem um custo e enquanto mais preciosos os nossos desejos e objetivos, mais esforços eles demandam. Por isso, devemos ter cuidado com os tais atalhos, o chamado jeitinho brasileiro de conseguir as coisas.

A imprensa nos revela todos os dias um monte de políticos desonestos, espertalhões, que pensando estar lançando mão do jeitinho brasileiro de conseguir riqueza, envergonha a nação e o mundo cometendo ilícitos, quando deveriam se conduzir de modo exemplar observando as leis e dos bons costumes.

Ninguém deve levar uma vida vazia, vivendo sem saber aonde quer chegar, toda pessoa precisa ter um objetivo de vida, que pode, inclusive, se constituir de vários outros fins específicos. Figura entre os clássicos da literatura universal a obra O Fausto, de Goethe, que trata de um pacto que determinado homem fizera com o diabo em troca da consecução de poder. Porém, ao conseguir o poder desejado, ele, O Fausto, enlouquecera em virtude de não saber, como deveria canalizá-lo. Não tinha ele plano de voo, objetivo de vida, por isso se perdeu, sem saber o que fazer com tanto. Esta é uma ficção, mas a vida está cheia de histórias semelhantes.
Obrigado por comentar.

sábado, 10 de abril de 2010

Conversa entre pais e filhos II


Para continuar a conversa sobre a diferença entre adversários e inimigos, podemos ainda usar o futebol como um exemplo. Os ditos clássicos são realizados entre times de rivalidade tradicional, mas, a rivalidade entre jogadores e dirigentes de equipes distintas se restringe aos ambientes próprios à competição – o estádio de futebol, a estância de decisão jurídica específica. Aqui o adversário é o time, o ente coletivo, ou sua representação, cujo mandado deriva da autorização (voto) de um coletivo, portanto também deve ser observada como coletividade. Fora das instâncias de competição, jogadores, técnicos, dirigentes, torcedores podem conviver perfeita e harmoniosamente com os profissionais de equipes adversárias, nutrindo, não raras vezes, relação de íntima amizade.

As brigas entre torcidas organizadas são excessos, criminalizados, indesejados, repudiados por toda sociedade, justamente porque constituem eventos socialmente vistos como desnecessários, violentos, inoportunos, impróprios e geradores de inimizade.

A inimizade é cega, não distingue ambiente, ou ocasião, não percebe a dinâmica da vida e, consequentemente, lhe passa despercebida também a mudança, as variações propiciadas pelo decurso do tempo. Como se trata de sentimento sem limite, pessoas ou grupos sociais que se sentem inimigos costumam se posicionar sempre contra o outro lado. Não importa o tempo, o lugar, ou o motivo. Não desejam o bem estar do outro lado, pelo contrário, desejam-lhes a derrota, o infortúnio e toda natureza de perdas. Para tanto, podem recorrer à instância de poder legal ou ilegal, praticar atos lícitos e ilícitos, pois à proporção que os sentimentos que os movem se amesquinham os expedientes a que recorrem tendem à exacerbação, à força bruta e até mesmo à barbárie.

A competição constitui evento próprio da disputa entre adversários, concorrentes com objetivos semelhantes – um título, um nicho de clientes, instalação de uma organização em determinado local, outros fins. É norteada por regras instituídas, possui limites e tende a observá-los, caso contrário, o lado infrator estará sujeito aos efeitos punitivos da instância responsável pela manutenção do estado de regularidade. Entre adversários a competição se realiza em espaço regular, oportuno e, sobretudo, dentro de limites socialmente cabíveis.

A vida em sociedade pressupõe o convívio com diferentes. Daí a necessidade de saber conviver com as diferenças e, para tanto, necessitamos conhecê-las de per si. O conhecimento das pessoas com as quais convivemos nos permite mais capacidade para compreender os seus atos, o modo como se comportam e expressam, dando-nos maior suporte social de convivência harmoniosa. É, como o piloto que planeja uma viagem, necessário conhecer o plano de voo dos outros, para se posicionar e, à medida do possível, evitar entrar em rota de colisão. Como em nossas vidas, no espaço, aeronaves com distintos objetivos, passam por rotas semelhantes a todo instante. Por isso, aeronaves com planos de voo que as leve a cruzar uma mesma posição (coordenada geográfica) no espaço, devem ter alturas (altitudes) diferentes para evitar uma catástrofe.

Em nossos planos de vida, passaremos por diversos lugares onde encontraremos com pessoas que diferem da gente em vários pontos: religião, etnia, nacionalidade, posicionamento político, opção sexual, posição social, modo de expressão, temperamento, entre outras diferenças. Entretanto, essas diferenças não são indicativas de superioridade ou inferioridade, mas, simplesmente constituem traços específicos comuns a cada pessoa que o apresenta. É importante sabermos conviver com cada um dos tipos que encontramos ou encontraremos nos lugares que freqüentamos ou que haveremos de passar. O que não devemos perder de vista é o nosso plano de voo. Portanto, continuaremos a nossa conversa, em outro momento, a partir deste ponto – o nosso plano de voo. Até lá.
Obrigado por comentar.