sexta-feira, 8 de outubro de 2010

É tempo de renovar

É assim como vejo as eleições que se desencadearam agora e se concluirão no final deste mês. Como uma possibilidade de renovação dos quadros políticos que temos aí. Sinto no povo a vontade de se livrar daqueles políticos que significam o atraso, a estagnação, o descuido, a arrogância, o descaso, a corrupção, a inversão total dos valores políticos, representando enfim uma classe que pensa um nefasto desenvolvimento excludente, do qual as pessoas, principalmente as pobres, ficam sempre de fora.
De volta ao Maranhão, de vez em quando tenho viajado de Santa Inês a São Luís e percebido o quanto o nosso estado está em defasagem com o desenvolvimento. Infraestruturas sociais básicas que já deveriam ser feitas ainda nem constituem planos. Sequer estão no papel. Ora, se antes brigávamos e íamos às ruas reivindicar para que as coisas saíssem do papel, hoje vemos que elas sequer são objeto de planejamento. Tão grande se revela o desleixo dos nossos governantes conosco, o povo do Maranhão.
De Santa Inês para São Luís, constatamos um fluxo normal do trânsito até o município de Miranda, dali em diante seguimos num engarrafamento arriscadíssimo, onde ultrapassagens significam verdadeiras roletas russas, e quem se arrisca a fazê-las se expõe ao perigo de proporção e conseqüência desastrosas. Quanto mais nos aproximamos de São Luís mais cuidado e habilidade o trânsito e a estrada exigem dos condutores de veículos.
A rodovia é demasiadamente estreita e inadequada para o tráfego de veículos a que está submetida diariamente. Os buracos ou remendos mal feitos estão por toda parte, em toda a sua extensão. Os campos de perizes são o clímax deste circo de horror. Ali os veículos se alinham de forma a não admitir o mais ínfimo descuido dos seus condutores. Qualquer descuido é fatal.
O visitante que chega a São Luís nos horários de pico, pensando em respirar fundo para aliviar da corrente sanguínea a adrenalina acumulada de Miranda ao Estreito dos Mosquitos, surpreende-se ao perceber que bem ali, logo ali no primeiro retorno do bairro de São Cristóvão (antigo bairro do Tirirical), aquele que dá acesso ao aeroporto, ficará a mercê de um engarrafamento imenso. Para que se tenha uma ideia, dali até o bairro da Cohab, mais ou menos uns cinco ou seis quilômetros, leva-se cerca de uma hora para completar o percurso.
Essa situação decorre da falta de zelo com a coisa pública que governos sucessivos têm demonstrado com o nosso povo.
Vejo a necessidade de fazer-se, pelo menos, a duplicação do trecho da rodovia BR-135 que vai desde o campo de perizes até São Mateus. Feito isso, ainda que tardiamente, já melhoraria. Mas, ainda assim seria um paliativo, se pensarmos que breve em Bacabeira será implantada uma refinaria que empregará cerca de 150 mil pessoas. Isto significaria, no mínimo, mais 50 mil carros naquele trecho de estrada.
Bem, mas como disse no início, agora passamos por um momento de renovação e eu desejo que este texto, em um exíguo tempo, já não retrate mais o caos do trânsito de São Luís, muito menos do trecho aludido da BR-135 .
Que em breve seja feito um viaduto lá no retorno do Aeroporto de modo que aqueles que visitarem São Luís não tenham que se deparar com um baita de um engarrafamento logo na entrada da cidade. Indesejável cartão postal para quem a visita e para nós, filhos da terra, que a amamos.
Desejo também que uma nova mentalidade política contamine políticos e gestores públicos de São Luís e do Maranhão de modo que todos se envergonhem pela contribuição que deram para que o nosso estado ocupe a vergonhosa e estigmatizante posição de ser a unidade da federação com o mais baixo índice de desenvolvimento humano.
São Luís, a ilha do amor, merece um arrojado planejamento e redimensionamento do trânsito e do transporte de massa. Merece saneamento básico em todos os bairros e povoados. Merece ainda, mais escolas públicas de boa qualidade, profissionalizante e de tempo integral. Merece a despoluição das nossas praias, e total adequação aos conceitos de sustentabilidade em vigor em todo planeta.Tudo isto é extensivo para o Maranhão. Por isso, desejo que os legisladores e administradores deste estado, agora renovados pelo mandato que o voto popular lhes proporcionou, promovam ações que propiciem, de fato, a mudança estrutural que o estado necessita, tirando-o desta incômoda posição que o colocaram. Isto, mais que uma necessidade, é uma questão de honra, vergonha e, sobretudo, de amor telúrico.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

A você, maestro Nonato, os meus respeitos

Era o final da década de 1970, quando o carnaval de São Luís tinha uma participação muito significativa dos blocos organizados. Eram muitos e muito bons concorrentes entre si: Mocidade Independente Turma do Saco – MITS, Unidos do Regional Tocado a Álcool – URTA, Turma do Lamê, Sem Komentários, Turma do Fola, Retiro Natal, e muitos outros blocos organizados todos de considerável qualidade.
Na época, participávamos da Turma do Saco, uma grande paixão na minha vida de folião, participante da comunidade do Bairro do Codozinho. Eis a questão. Na Turma do Saco, optamos por ser mais que um bloco carnavalesco, um clube comunitário, com compromisso com a comunidade. Diria que na época nos sentíamos responsáveis pela animação do bairro. Ali festejávamos datas como o dia dos anciãos, o dia das mães, o dia dos pais, o dia das crianças, o período junino, o Natal e outras datas festivas do nosso calendário.
Mas, éramos um bloco carnavalesco situado na Grande Madre de Deus, reino do URTA. Precisávamos também alegrar o bairro do Codozinho com títulos carnavalescos, mas para isso tínhamos que superar os nossos irmãos ali da Madre de Deus. Foi então que montamos uma estratégia que iniciava por um esforço coletivo de dar notoriedade à Turma do Saco.
Nesse projeto os radialistas e jornalistas de São Luís foram grandes aliados. O outro nosso ilustre aliado foi o Maestro Nonato. Passamos a fazer festas de escolha do samba enredo do bloco e a divulgação do samba nas emissoras de rádio de São Luís. Para tanto tínhamos que gravar o samba. Mas como e onde?
Éramos um grupo de jovens amantes do samba e tocávamos alguns instrumentos, mas não entendíamos de estúdio, não conhecíamos nada do processo de gravação fonográfica, mas tínhamos uma força de vontade capaz de superar qualquer dificuldade ou obstáculo que se pusesse a nossa frente – éramos a Turma do Saco do Codozinho.
Num bloco carnavalesco a maioria dos músicos são percussionistas e, quando não se tem o costume de tocar num ambiente que integre percussão com instrumentos de corda a coisa às vezes complica. Num estúdio então, é um Deus-nos-acuda. Por isso é que temos muito respeito pelo Maestro Nonato. Ele nos recebia em seu estúdio e nos dirigia horas e horas durante a gravação dos sambas enredo da Turma do Saco. Paciente, competente, músico de notória capacidade educativa, um amante da música, sobretudo da música que fazemos aqui no Maranhão.
Maestro Nonato nos deixava tocando horas a fio e aos poucos ia fazendo um trabalho educativo até que chegássemos a um estado que valesse a pena gravar. Assim foram os primeiros anos, depois fomos aprendendo com ele, mudando o nosso comportamento em estúdio e, consequentemente, extraindo um produto melhor do nosso trabalho musical.
Essa parceria ilustre atravessou os anos 1980, quando a Turma do Saco ganhou uma série de títulos, com o auxílio brilhante do nosso maravilhoso maestro.
Maestro, na verdade o respeito que temos por você foi construído carinhosamente nesse interregno específico da História da Música Popular Maranhense, cuja construção você protagonizou como Maestro, dono do inesquecível grupo Nonato e seu Conjunto, e ainda, como pioneiro na edificação de um estúdio musical, possibilitando que músicos maranhenses tivessem a oportunidade de gravar e difundir os seus trabalhos. Por tudo que fez por nós e conosco, dedico-lhe as minhas palavras, sobretudo, de agradecimento e de reconhecimento da lacuna musical que neste setembro o senhor deixa, após prestar uma relação imensurável de serviços à música maranhense.
Sabemos, maestro Nonato, que para além do seu trabalho como músico, pianista, você teve muitos aprendizes que hoje brilham e ampliam o elenco de discípulos que beberam na fonte de conhecimento musical que você foi. Zé Américo, Valber, Oberdã, Pitomba, são ilustres músicos que continuam o trabalho que você começou em um tempo que ser músico era algo muito difícil.
Por tudo isso, Maestro Nonato, os nossos mais sinceros, saudosos e carinhosos respeitos.

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sábado, 4 de setembro de 2010

O que mais nos falta para definitivamente respeitarmos a natureza?

Há tempos cientistas vêm alertando a humanidade da necessidade que temos de explorar a natureza atentando para os limites que o uso sustentável dos recursos naturais pressupõe.
No exercício da minha profissão observo a resistência que têm os proprietários rurais do Brasil em cumprir o que determina a Lei n.o 4.771, de 15 de setembro de 1965 – o Código Florestal vigente, no que respeita à conservação da área de reserva legal que toda propriedade imobiliária rural deve ter. Propriedades incidentes na região configurada como bioma Floresta Amazônica devem conservar uma área de reserva legal num percentual de 80% da área total do imóvel. No bioma Cerrado, esta área diminui para 35% e, em áreas de Campo a reserva legal é de apenas 20%.
A reserva legal foi instituída com o objetivo de preservar essências florestais nativas e, consequentemente, a fauna característica dos diversos tipos florestais das regiões do país. Isto propicia que as gerações posteriores conheçam os diversos tipos florestais e a respectiva fauna característica de distintos tipos ecológicos.
No Brasil, houve uma época, em que o lema era integrar para não entregar, em que o governo incentivava a colonização como forma de desbravar a Amazônia. Essa política atraiu empreendedores e aventureiros de todas as outras regiões do Brasil, notadamente do Centro-Sul.
Muitos foram os que venderam as terras que tinham em suas regiões de origem e compraram terras baratas e abundantes na Amazônia. Nesse bojo, muitos compraram terras que já constituíam posse antiga de pequenos agricultores autóctones ou saídos de suas terras de origem escorraçados pela violência decorrente dos conflitos pela disputa da posse da terra.
Interessa aqui ressaltar que as leis que regulam sobre o uso da terra já existiam, entretanto essas leis sempre foram flexibilizadas em decorrência de interesses imediatistas acionados não raras vezes em nome do desenvolvimento da nação. É, mas como diz o dito popular, não há que cuspa pra cima que não lhe caia na cara. Aí está o nosso país cuspidinho e escarrado. Mandou desbravar, desmatar, integrar contingentes populacionais das demais regiões à Amazônia, e agora, temos que limpar o rosto nacional cuspido pela vergonha do desmatamento desenfreado, das queimadas, da devastação de florestas, da inutilização de solos outrora férteis, de inúmeros outros crimes contra o meio ambiente. Tudo em nome de um desenvolvimento socialmente injusto, economicamente oneroso e ambientalmente desastroso que não se sabe a quem serve.
A cusparada que desceu em queda livre veio trazendo assoreamento de rios, enchentes incontidas, desmoronamento de morros onde ergueram edificações indevidamente, desabamento de pontes, interrupções de estradas, aumento da média da temperatura, diminuição da umidade relativa do ar, mudanças no regime pluviométrico, alteração do volume de água de vários rios, desabrigo milhares de famílias, mortes, aterramento de casas e famílias inteiras, outros prejuízos, cujos culpados jamais se apresentaram para arcar com os prejuízos.
Esse conjunto de fenômenos, em que pese os esforços do governo no sentido de reverter a situação, tem se repetido periodicamente em regiões diversas do país.
A pecuária é a grande vilã da história, mas a pecuária nos moldes como está configurada no Brasil contou, e isto é fato, com diversos programas de incentivo do governo. Contudo, é hora de formatar a agricultura brasileira (lavoura e pecuária) com uma configuração mais apropriada aos tempos hodiernos. Afinal, a pesquisa nacional já possui tecnologias suficientes para desencadearmos um processo de desenvolvimento mais produtivo, que freie o desmatamento, que cultive sinergia entre os diversos sistemas de produção desenvolvidos no âmbito da propriedade rural, que gere e utilize formas de energia alternativas (aproveitando para isso cursos de água, estercos e outros recursos existentes nas propriedades) que embora intensifique o uso de tecnologia aumente a oferta de postos de trabalho.
Para tanto, é necessário que no âmbito do crédito rural se estabeleça normas condicionantes para compelir os agricultores que dele se beneficiam a empregarem efetivamente tecnologias ditas sustentáveis.
No âmbito da assessoria técnica rural, deve-se estabelecer novas formas de prestação desses serviços, chamando os agricultores componentes da agricultura familiar e da agricultura patronal a estabelecer um pacto de sustentabilidade que envolva o emprego de tecnologia, a conservação do meio ambiente, o emprego de formas alternativas de energia, o aumento da produtividade.
Percebe-se a necessidade da quebra do paradigma agricultura patronal versus agricultura familiar. Não se vislumbra sustentabilidade que enseje justiça social e um ambiente de paz e harmonia no campo enquanto a agricultura patronal e a agricultura familiar não perceberem formas de parceria sustentáveis entre si. Sem esquecer as diferenças que marcam essas categorias, creio na possibilidade de estabelecimento de formas sustentáveis de relação ( socialmente justa, economicamente vantajosas às partes, ambientalmente respeitáveis e, o que é essencial, juridicamente delimitadas) que agregue vantagens aos dois segmentos, integrando interesses na segmentação da produção de bens, conforme o interesse das partes.
Do lado do estado, vê-se a necessidade urgente de evitar dissipação de formas de energias técnica e administrativa, evitando a prática de multiplicidade de ações desordenadas em diversos entes oficiais que embora façam atividades semelhantes não compartilham o fluxo das informações resultantes dos seus afazeres. Com respeito ao cuidado com o meio ambiente, poderíamos ter uma ação bem mais abrangente se os órgãos fundiários (federal e estadual), as instituições financeiras aplicadoras de crédito rural e os órgãos ambientais (no âmbito das unidades da federação e da União) trocassem informações e saberes entre si, estabelecendo, desta forma um sistema com ações, capacitação, arcabouço salarial e informações conexas e sistematizadas, em que, cada um dos entes pudesse usar as informações de acordo com os seus interesses.
Possível é que este seja um modo mais trabalhoso de se executar ações, todavia, é mais eficiente, mais eficaz, integrado, e se bem conduzido, contará com um fluxo de informações mais abundante e devidamente sistematizado, e prontamente disponível.
De uma coisa temos certeza, nada é mais oneroso à humanidade do que as catástrofes e as intempéries que estamos submetidos a cada ano em decorrência dos maus tratos e dos descuidos com que temos tratado a questão ambiental. Chega de tantos prejuízos, nada mais nos falta para corrermos em socorro de nós mesmos cuidando dessa nossa parte chamada de natureza.

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sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Magno Cruz mais um irmão que se vai


Doeu-me muito saber que o irmão Magno Cruz pereceu. A maneira como eu soube também contribui para que em mim o impacto fosse tão forte. No momento em que atendi o telefonema do meu compadre Laurindo, estava, literalmente, com as trouxas na cabeça, na rodovia BR-010 saindo de Porto Franco para Imperatriz seguido por um caminhão que conduzia a minha mudança de Tocantinópolis/TO para Santa Inês/MA, onde estou residindo a exatos 4 dias.

Conheci Magno Cruz quando ele ainda morava no Bairro Belira e eu no Codozinho, em São Luís/MA. Na época ele era estudante de Engenharia Civil e eu fazia o que hoje se chama de ensino médio. Foi o Zequinha de dona Elza (José dos Santos Costa, ex-deputado estadual, hoje Juiz de Direito) que o apresentou para mim. Fomos apresentados como pessoas que gostavam de samba, que tínhamos algo em comum. Eu era dirigente do bloco carnavalesco Mocidade Independente Turma do Saco, pelo qual ele desfilou um ano apenas.

Com o tempo a Madre de Deus foi tomando conta do coração de Magno Cruz e ele ali chegou a ser dirigente do bloco organizado Caroçudos numa época em que eu voltava à Diretoria da Turma do Saco e pude constatar a força de mobilização que tinha o líder Magno Cruz.

Magno Cruz era pessoa extremamente inteligente, cumpridora dos seus deveres, pontual nos seus compromissos, sério, às vezes até eu o achava sisudo, tamanha a seriedade dele. No entanto, embaixo daquela seriedade toda estava um ser humano sensível aos anseios povo brasileiro, amante dos folguedos populares, festivo na sua essência, sobretudo muito organizado.

Brincava com ele, falando sério naquela época em que amanhecíamos na Madre de Deus - um dia haveremos de trabalhar juntos pela Turma do Saco. Nunca realizei este sonho apesar da admiração mútua. Ele me chamava de modo sério e carinhoso de “meu irmão”.

Ali, na Madre de Deus amanhecemos muitas vezes, ora nos festejos juninos, nos ensaios de bumba-meu-boi movidos pelas catuabas da vida e sempre admirando as toadas maravilhosas de Mané Onça e do nosso saudoso Vavá; ora amanhecíamos nos bares da Madre divina na companhia de Luzian, Laurindo, Maju, do grande percussionista Lázaro, entre outros amigos.

Os papos eram ótimos, falávamos das coisas maravilhosas de São Luís, da cultura da Ilha. Das coisas que nos uniam e nos desuniam: Turma do Saco, Caroçudos, Turma do Quinto, Flor do Samba, URTA, Mané Onça, Humberto de Maracanã, João Chiador, Cristóvão da Madre Deus, comunidades negras rurais, direitos humanos, e tome cerveja para regar um papo tão prolífico, entusiasmado e diverso. Invariavelmente, amanhecíamos em algum boteco da Madre de Deus, ou mesmo no bar da Turma do Saco.

Depois entramos numa fase mais politizada em que Magno Cruz chegou à Diretoria do Centro de Cultura Negra (CCN-MA), do qual sou fundador, junto de amigos como Mundinha Araújo (grande liderança do movimento negro no Maranhão), Dr. Luizão, Dr. Raimundo Antônio, do Adv. Carlos Caroço, Vinólia, Professora Sílvia Black, Avelino Jansen, e outros amigos.

Mundinha Araújo tem o mérito de protagonizar a liderança, mobilização e a articulação de tantas pessoas na condução da fundação do CCN, em 1979. Magno Cruz foi capaz de honrar todo o esforço de Mundinha Araújo, dando ao CCN a configuração de movimento. Movimento, ação, alegria, dinamismo, são termos indicadores da gestão de Magno Cruz no CCN. Diria até que o movimento negro no Maranhão tem como um dos seus marcos de referência a passagem de Magno Cruz pela Diretoria do CCN.

Magno Cruz alçou vôos também na política partidária, na qual eu sei que ele não logrou tanto êxito. Participou da luta corporativa no âmbito da empresa em que trabalhara, mas também ali sofreu várias decepções. Amargou anos de desemprego em decorrência da luta séria que travara, passou por dificuldades e não teve o acolhimento devido no âmbito do movimento social que tanto defendera. Estes foram os ônus de uma luta séria, travada por Magno Cruz sempre visando o bem coletivo.

Magno Cruz jamais exitou em sair na defesa do povo negro, quaisquer fosse a ocasião que assim o demandasse. Lembro-me ainda de uma querela entre ele e o professor Ubirajara Rayol. Este defendia São Luís enquanto Athenas brasileira e repudiava o título de Jamaica brasileira; Magno Cruz rebateu artigos do professor Ubirajara Rayol defendendo o título de Jamaica brasileira que as rádios davam à cidade pela influência que o reagge exerce em uma significativa parte do povo ludovicense. Foi uma briga de gigantes onde cada um defendia a São Luís que lhe ensejava pertencimento. Ambos defendiam a mesma Ilha; Magno Cruz sabia do que falava o professor Ubirajara Rayol e este também sabia do que Magno Cruz falava. A defesa de Magno Cruz se prendia ao fato de que a Jamaica brasileira nada era senão a manifestação cultural de uma parte dos filhos da Athenas brasileira deixados culturalmente órfãos pela soberba indiferença de uma sociedade dita culta.

Poeta, entregou-me uma poesia que fez em homenagem póstuma para Célia Maria minha primeira mulher. Guardo comigo como um troféu, uma consideração irreparável. Magno era amigo de todos os momentos.

Com a passagem de Magno perdemos uma relevante liderança do movimento negro no Maranhão: pessoa séria, corajosa, sensível, intelectualmente brilhante e, sobretudo honrada.

Magno Cruz, é por tudo isso e outras coisas que as palavras não expressam que você nos enche de saudades na sua partida precoce, meu irmão.


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