Por que escrevo com tanto amor sobre a Mocidade Independente Turma do Saco? Muitos me perguntam isso. A princípio fiquei sem saber o que falar; depois, percebi que as razões são muito simples. Poderia resumir respondendo que tudo decorre da minha convivência com as pessoas maravilhosas que faziam o Codozinho da época quando eu ali residi.
Quem me dera tivesse eu uma foto de cada momento ali vivido. Os jogos de futebol e de futsal nos campos e na velha quadra do Colégio Maristas. Os jogos de futebol na Areinha. As peladas e as confusões no Parque do Bom Menino. As festinhas no Codozinho e nos bairros vizinhos, nas quais entrávamos invariavelmente como penetras. As idas e vindas carregando água da Belira para o Codozinho. As paqueras, os namoros, as paixões, momentos inesquecíveis jamais registrados. Os jogos entre casados e solteiros, sempre muito disputados, sempre muito satirizados, sempre muito fraternos, apesar das minhas cascarias. As festas na Turma do Saco, o reaggae embalado pela radiola de Xaxado. Vejo que quando escrevi a palavra radiola, o computador a sublinhou em vermelho, como se quisesse me dizer: - Pôxa, cara, mas tu és velho, hein?
As festas de Santa Bárbara que a minha mãe fazia todo o dia 04 de dezembro. As noites estudando no quartinho da casa de Bacabal: eu, Deco, Bacabal, Assis, Concita, Rogério Guayanaz e tantos outros amigos e amigas. As rodas de samba que fazíamos na Turma do Saco e as que fazíamos fora.
Lembro-me de quando eu ainda namorava com a minha primeira mulher, a Célia. Um dia, ela irritada com as minhas ausências, me perguntou se eu já havia percebido que eu não a visitava durante os meses de janeiro e fevereiro. Juro que levei um enorme susto. Nunca havia percebido isso. Ela morava pertíssimo de mim e eu ia muito a sua casa, mas era de março a dezembro. Eu vivia de amores pela Turma do Saco e esquecia-me até de namorar, acreditem. Mas, não percebia, tamanho era o meu envolvimento com o carnaval.
As serestas em que eu cantava, acompanhado por Colozinho. As músicas de Paulo Diniz, Nélson Gonçalves, Luiz Melodia, Dorival Caymmi, Roberto Carlos e tantos outros autores. As passagens de músicos que sempre davam uma paradinha ali e davam uma canja pra gente. Era um barato! Macarrão, Zé Miguel, Paulo Simonal, Niles, Costinha, Raimundinho e muitos outros que encostavam junto à turma pegavam o violão, o cavaquinho, ou a gaita e tocavam maravilhas. Niles era ótimo, sempre tocava “sons de carrilhões”, deixava a gente babando e depois acompanhava alguma coisa pra eu cantar. Gostava muito das músicas de Dorival Caymmi e das músicas Dick Farney. Eu sabendo disso, fiz um repertório desses compositores e, quando ele pegava o violão eu saboreava cada nota dos solos de músicas clássicas que ele fazia e depois, cantava músicas como Marina (D. Caymmi), Copacabana, Alguém como tu (Dick Farney) e ia emendando uma na outra, como artifício para prendê-lo ali. Eu gostava muito de vê-lo tocar.
Macarrão era excepcional. Cantava tudo, de todas as épocas, de Os Beatles a João Gilberto. Macarra é maravilhoso, sinceramente. Sinto a felicidade de um dia ter tocado com um músico da magnitude dele. Mas, eu gostava mesmo era de ver Macarra tocar as músicas de sua própria safra. Ele é um excelente músico – instrumentista e compositor. Conta a lenda que, uma noite Macarrão, Lincoln (hoje engenheiro civil) e Maxwell (hoje médico), cismaram de fazer uma serenata. Como todos três tocavam violão e queriam tocar juntos, mas só tinham, naquela ocasião, 2 violões, começaram a andar atrás de mais um violão, mas acharam apenas um bandolim. Como ninguém sabia tocar o instrumento e Macarrão é músico profissional, eles incumbiram Macarra de tocar o tal instrumento. Macarra começou arranhando uma nota aqui, uma nota ali e, no final da seresta já dominava o instrumento. Macarrão é realmente um excelente músico.
E os desfiles da Turma do Saco? Eu os adorava. Era apoteótica a saída da Turma do Saco do Codozinho para a Avenida, ou mesmo ainda nos ensaios. O bairro todo se mobilizava. Quando eu via aquela gente humilde, aguerrida em tudo que fazia, junta, cantando as músicas que nós fazíamos ali, eu sentia algo indecifrável. Éramos felizes por pertencer ao bairro do Codozinho e à Turma do Saco e, o Codozinho e a Turma do Saco explodiam em felicidade porque nós éramos parte deles. Era contagiante.
O papo cabeça regado a cachaça na quitanda do seu Belo. O balcão do Belo virava a nossa tribuna, onde falávamos sobre a política estadual, nacional, ou municipal. Claro que toda essa conversa sempre fica espetada no prego onde seu Belo pendurava as dívidas.
Lembram do cinema de arte do Cine Eden? Íamos a patota, às sextas, assistir o cinema de arte, tomar um caldo de ovos na lanchonete Duas Nações (Rua Grande, quase defronte do Cine Passeio), ou apenas um sorvete, na sorveteria Stop (Rua do Passeio, depois do Cine Passeio, no sentido da Praça Deodoro). Se não tínhamos grana pra fazer uma coisa nem outra, nos bastávamos em ir namorar sob a brisa da Praça Gonçalves Dias, o nosso Largo dos Amores.
Já são seis da manhã e eu ainda tenho muitas coisas a falar do Codozinho e da Turma do Saco, mas vou me conter, senão viverei o resto de vida que tenho falando apenas dessa parte da minha hestória. Mas, não posso esquecer, porém das festas de aniversário. Os aniversários eram bárbaros, gostosos, divertidíssimos, animados e, o melhor, sempre ou quase sempre acompanhados dos famosos boca livre. O aniversário mais famoso da rua era o do Zeca Bacabal. O cara não bebia mas gostava de ver os amigos saírem bêbados do seu aniversário. Por isso ele acumulava bebida o ano inteiro para servir aos amigos no dia 1.o de janeiro.
Não esqueço jamais os da casa de dona Inês e seu Rosel, pais da Socorro e da Rosário Costa, e avós do saudoso Lambari. Enquanto na radiola, rodava uma bolacha de vinil de Gilberto Gil, tocando ...”Toda menina baiana tem um santo, que Deus dá”..., nós nos deliciávamos com arroz à grega, torta de camarão e outras delícias, que Deus deu e que Deus dá e continuará dando ao Codozinho, em festas animadas, animadas e animadas, para todo o sempre...
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