domingo, 29 de maio de 2011

Codozinho: o lugar e as suas personagens

Seu Gonçalo. O Pão de Santo Antônio, o pão de seu Gonçalo. Lembrar de seu Gonçalo é lembrar do pão de Santo Antônio. Dia 13 de junho, Lá vinha ele descendo o Codozinho, com um saco de pão distribuindo Codozinho abaixo. A meninada toda se assanhava, gritando o nome daquele velhinho bondoso, com cara de Santo, distribuindo o pão de Santo Antônio, ou o pão-de-santontonho, como chamava a meninada daquela época.
- Seu Gonçalo, seu Gonçalo, um pra mim – Gonçalo atendia a criança e logo ela dizia:
– mais um pro meu irmão. E Gonçalo o atendia novamente. Descia Codozinho abaixo com o saco cheio de pães, distribuindo-os feito a boa árvore frutífera que dá os seus frutos sem escolher a quem. Assim era Gonçalo a distribuir os seus pães-de-Santo Antônio. Crianças de toda índole, de todas as cores, de todos os credos, de toda estirpe eram dignas do pão do seu Gonçalo.
Gonçalo era morador do Codozinho, depois se mudou lá para a Rua de São Pantaleão onde tinha comércio. Era um homem do qual todos só falavam bem. Um homem calmo, simples, discreto, de grande credibilidade, muito benquisto e admirado por todos codozinhenses dos 1970.

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Francisco Bahia, o nosso querido Chiquinho Bahia
No momento hodierno, quando assisto na televisão essa nova-antiga moda de humorista apresentar diante da platéia textos humorísticos, logo me vem à mente a lembrança de Chiquinho Bahia. Chiquinho Bahia é um humorista nato, tem o dom de falar coisas engraçadas, ou de dar um tom satírico em determinados fatos sociais.
Chiquinho Bahia era capaz de deixar-nos hipnotizados durante horas a sorrir das suas narrativas sobre fatos ocorridos no bairro do Codozinho, com pessoas do Codozinho, ou quaisquer outros fatos de repercussão social, econômica, política, ocorridos no território nacional. Ficávamos ali, na calçada de dona Belisa uma tarde inteira sorrindo das piadas e dos fatos sociais contados na versão humorística de Chiquinho Bahia.
Francisco Bahia é um homem das letras, bom papo, sempre muito bem humorado. Quando jovem, era arguto, mulherengo, galante. Falava um português brilhante, acima da média dos jovens codozinhenses. Foi um participante ativo do Mojore – Movimento Jovem Renascença.
Como falei anteriormente, Chiquinho é de fato uma pessoa das letras, cronista social de requinte singular, poeta notável, de fina estirpe. Suas poesias ocuparam várias páginas de periódicos e livros dos anos 1970 e 1980. Pena que esse poeta ainda não nos brindou com um livro de poesias. São muitas, de boa qualidade e em quantidade suficiente para fazer um excelente livro.
Francisco Bahia não fez parte da Turma do Saco, mas foi uma presença nos primórdios da construção da sede. Ajudou na limpeza do terreno, bateu bola ali conosco e sempre passava lá para bater um papo com a rapaziada. Sua opção evangélica o mantinha distante dos carnavais, preferia participar dos retiros com os correligionários da Igreja que frequentava. Na sua vida, o limite entre o profano e o sagrado foi sempre um dilema mal resolvido.
No bairro, as pessoas tinham o hábito de cumprimentar as outras de longe. Passavam do outro lado da rua e praticamente gritavam. Era costume alguém passar e de longe gritar:
- E aí Chiquinho, como vai? E ele respondia também em alto som
– Passando... e só para os que estavam perto ele dizia:
– A mão na sua bunda seu fdp. E todos, é claro, sorriam muito.
Numa noite de sábado, como era de costume, a turma no bairro saiu a procura de uma festa. Alguém havia falado que numa casa na Belira ou Vila Bessa havia um aniversário de 15 anos. Resolvemos entrar de penetra e o bom penetra não pode dar pinta, vai chegando e entrando como se fosse o próprio dono da festa. Assim procedemos, Chiquinho Bahia à frente e todos os outros rapazes o seguiam. Deparamos com um porteiro que nos solicitou o convite e, claro, não tínhamos e o porteiro disse: - só entra com convite. Quisemos argumentar, mas não logramos êxito e ficamos todos na porta da festa na maior cara de pau.
De repente, ouvimos um grito – Bahia, Bahia..., era um amigo de Chiquinho Bahia, que o conhecia do Colégio Ateneu Teixeira Mendes. Chiquinho, gentilmente, correspondeu ao cumprimento e o amigo chegou bem perto dele e disse: - O que você faz aqui na porta? Por que não entrou na festa? Chiquinho, educadamente, respondeu: - É... nós até que tentamos, mas o cara da porta nos impediu. O amigo do Chiquinho disse, um tanto espantado - o quê? Como pode fazer isso com um amigo meu, na minha casa? Chamou Chiquinho e os demais, colocou todos para dentro da festa e tirou o porteiro do cargo. Esse fato foi comentado no Codozinho por muito tempo.
Chiquinho Bahia tem hestórias e está vivinho para contá-las e nos brindar com o humor que lhe é característico. Enquanto morou no Codozinho, contribuiu para que o bairro fosse mais alegre e mais culto. Contou hestórias engraçadas, escreveu esquetes, peças teatrais, músicas e poesias, mas é pelo bom humor que eu o saúdo com um forte abraço.

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José Henrique Franco de Sá, Henrique Pilu, Zeca Pilu, ou Zé Cabeça. Esse cara tem hestória. Henrique foi um destacado líder do bairro do Codozinho. Ele fundou o bloco carnavalesco tradicional Os Intocáveis, os times de futebol de salão América e depois o Benfica. Fundou o time de várzea que se chamava Clube do Remo e, foi um dos principais fundadores da Turma do Saco e ainda o primeiro presidente do bloco. Pilu era o cara.
No Codozinho dos 1970, 1980 e 1990 não houve movimento em que Henrique não fizesse parte.
Poderíamos dizer que Henrique fez parte da primeira geração brilhante que o Codozinho teve. Dela fazia parte também: Francisco Bahia, Roberto, Negro Sebastião, João Quim, o saudoso Eliezer, Joca, Reginaldo Raposo (Seu Reco), Wallace, Baima (Totonho), Joca de Serrote, César Viégas e tantas outras pessoas. Foi essa geração que participava do bloco Os Intocáveis e dos times de Futsal, Benfica e América.
Essa geração também fez parte do time de várzea Clube do Remo, mas nesse momento uma outra geração chega à adolescência e passa a exigir maior participação na vida do bairro.
Desde então a geração de Henrique Pilu passa a ser identificada, pela geração emergente, como “a panelinha”. Daí em diante, fosse nas peladas da Areinha ou do centro esportivo do Colégio Maristas onde jogávamos bola, fosse na Turma do Saco, os novos exigiam participação, maior participação.
Barreiras foram quebradas de forma pacífica e consensual. Tanto no futebol quanto no carnaval mesclaram-se as gerações e o movimento comunitário ganhou enorme substância de felicidade. O Clube do Remo tornou-se um time de várzea quase imbatível. Na Areinha, ganhamos todos os torneios e campeonatos que participamos.
No tocante ao carnaval, a Turma do Saco ganhou novos talentos, novas idéias e, consequentemente, visibilidade no âmbito do carnaval maranhense. A sede da Turma do Saco passou a ser palco de grandes eventos sociais. Festas dançantes com as melhores bandas musicais da cidade. Disputa de samba enredo, comemorações natalinas, dias das mães, dia dos anciãos, rua de lazer e inúmeros eventos.
Foi um momento em que a presença feminina fez uma enorme diferença na organização do bloco. Beth, Maria Bacabal, Odila, Vaninha, Odineia, Dadinha, Eliane de Serrote, Dedé, Lourimar, Tereza de Bebé e inúmeras outras figuras contribuíram fortemente para o crescimento da Turma do Saco.
Henrique deixou de ser presidente do bloco, mas nunca deixou de ser uma pessoa influente e respeitada por todos. Um outro movimento, ou melhor evento da Turma do Saco e do Codozinho que Henrique participou ativamente, foi o jogo entre solteiros e casados, que acontecia uma vez por ano, logo no início do ano. Esse evento tomou uma dimensão imensa a ponto de tornar-se uma tradição. Contudo, após algum tempo o evento foi esquecido e esse feliz e disputado encontro nunca mais aconteceu.
Henrique é uma pessoa da qual não se pode prescindir quando falamos da hestória do Codozinho sob pena de deixá-la sem a devida riqueza de fatos sociais brilhantes.
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domingo, 15 de maio de 2011

Codozinho: o lugar e as suas personagens


Todos os cenários têm seus personagens que os marcam e os caracterizam em determinados momentos. Cenários, momentos, personagens constituem o trinômio característico dos lugares. No Codozinho dos anos 1970 não era diferente. Quando ali cheguei encontrei pessoas que eram características e do Codozinho de Cima.
Zé Pedrada era um símbolo. Aquele velho negro, barba branca sempre mal feita, estatura média, um tanto atarracado, introspectivo, de poucas palavras, morando sozinho naquela casa porta e janela à frente da casa da Maria Maçarico. Os amigos apontavam: – Olha, aquele é o Zé Pedrada, o negro mais forte que o Codozinho já viu. Ele é pescador aposentado, agora só pesca esporadicamente. Quando pescava, ia para o mar e ao voltar dividia o quinhão com os companheiros de pesca, pegava a sua canoa colocava nos ombros e a carregava da Madre Deus ao Codozinho e a deixava na porta da sua casa.
Zé Pedrada era mesmo motivo de orgulho para as pessoas do Codozinho daquela época. Todos o respeitavam, porque além da fama de homem forte, era também temido por alguns feitos de valentia em defesa de seus vizinhos. Ali, quando dos primórdios do bairro, não raras vezes a rua se viu envolta em brigas com a polícia militar e, num desses eventos, Zé Pedrada lutou com muita bravura batendo em vários soldados e colocando a polícia em debandada sob as vaias do povo codozinhense.
O apelido, de acordo com a lenda, também derivava das brigas e da habilidade que aquele negro forte, calmo, pacato, tinha quando estava com uma pedra na mão. Uma pedra, um pedaço de tijolo, ou um caco de telha nas mãos do Zé Pedrada eram armas poderosas. Mas, o nosso Zé Pedrada, que fique claro, não era um homem encrenqueiro, um brigador, um desordeiro, pelo contrário, era um homem de bem, trabalhador, calmo, caladão, como se diz hoje, na dele. Respeitava todos, tratava todos muito bem, era um ser talhado para o trabalho – a pesca. Assim era o nosso querido e saudoso Zé Pedrada, cuja canoa velha apodreceu na porta dele, como um símbolo, um troféu do seu trabalho e do vigor físico de um pescador negro que quando terminava de pescar colocava o seu instrumento de pesca nas costas e o levava para casa, enquanto os demais deixavam as canoas atadas em moirões à margem do Rio Bacanga.
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Raimundo Santos – O Diquinho. Se alguém chegasse lá no Codozinho perguntando por Raimundo Santos, por certo sairia dali com a informação única de que ali ninguém conhecia qualquer Raimundo Santos, exceto se a pessoa que o procurava tivesse a sorte de bater na porta de dona Dorinha, a mãe de Diquinho.
Porém, se alguém perguntasse por Diquinho, o máximo que as pessoas poderiam responder era: - É um que trabalha no Jornal Pequeno? Mas, isso era mesmo só pra ter a certeza de quem se tratava. Porque Diquinho era inconfundível. Baixinho, ligeirinho, como ele próprio gostava, cheio de picardia. Mestre no manuseio das palavras, doutor em tiradas originalíssimas. Diquinho era linotipista do diário Jornal Pequeno e foi também, se não estou enganado, funcionário dos Correios. Boêmio, gostava da noite, tocava cavaquinho e serrote. É isso mesmo, serrote. O que para o marceneiro e carpinteiro era instrumento de trabalho, para Diquinho era um instrumento musical e, quanta musicalidade ele conseguia extrair do serrote.
Diquinho era um operário das letras, uma vez que como linotipista ele fazia letras de chumbo para imprimir o jornal, mas ele não se contentava com isso e sempre dava uma mão na edição da coluna A Peroba, cujo responsável era o velho e saudoso Bogéa, seu patrão e amigo – o proprietário do Jornal Pequeno. A Peroba tratava daquilo que Diquinho mais entendia – tiradas, piadas, charadas.
Certa vez eu conversava com Diquinho na porta da casa dele. Enquanto isso, um carro pipa abastecia a casa de um vizinho de classe média com água potável. Naquela época o bairro tinha muita carência desse imprescindível líquido. Então ele se virou pra mim e disse: - Tá vendo LP (de Luiz Prego), enquanto ele tem um carro pipa cheio de água, nós ficamos só com água na boca...
Uma tarde Diquinho estava no quiosque da Praça João Lisboa, tomando um conhaque, quando um amigo intimidoso o avistou e, do outro lado da rua foi logo gritando: - Ei fidumaégua! - Diquinho, com a sutileza que lhe era peculiar, virou-se para a janela do quiosque, depois se virou novamente para o amigo e disse: - amigo, isto aqui é uma janela, não é um espelho. Com as gargalhadas que ele arrancou dos presentes, deixou o amigo desconsertado.
Uma noite, após o serviço, Diquinho saiu tomando umas e outras com o chefe e mais uns amigos. Todos de classe média, só ele era pobre, mas era querido no meio pelo que representava culturalmente, pois além de amigo, tinha intimidade com o cavaquinho, tinha um bom papo, era gente boa. De bar em bar, foram parar no quiosque da Praça do Cemitério, cujo proprietário na época era o Zé Caldas, também morador do bairro do Codozinho. Sentados à mesa, Diquinho tirou uma carteira de cigarros do bolso e os ofereceu. Todos recusaram educadamente, alegando que se tratava de um cigarro muito forte. Ele tirou um cigarro e o acendeu, recolhendo em seguida a carteira ao bolso, enquanto os demais fumantes colocaram as suas respectivas carteiras de cigarros à mesa.
Mas, papo de boêmios atravessa a noite, entra pela madrugada e não raras vezes, é aquecido pelos raios da manhã. Neste dia, não foi diferente. Entre um papo e outro, uma música, uma piada e outros assuntos afins os cigarros dos outros acabaram. Recorreram ao Zé Caldas, mas o estoque deste já havia acabado. Diquinho, sutilmente colocou a sua carteira de cigarros gaivota (fortíssimos) à mesa. E como vocês sabem, fumante é fumante, pode ter preferência por alguma marca, mas no fundo gosta mesmo é de fumar. Sem qualquer surpresa para Diquinho eles fumaram todos os cigarros dele, que de início recusaram sob a alegação de se tratarem de um produto muitíssimo forte, o que de fato o era, entretanto, não foram percebidos do mesmo modo com a falta da marca que eles preferiam, o que os deixou sob o olhar sutil e sarcástico de Diquinho.
Diquinho foi um mestre no ato de fazer piadas, na construção de trocadilhos, na arte de fazer charadas. Aliás, uma das coisas que ele mais gostava era fazer charadas.
Foi o meu mestre. Foi dele que recebi as primeiras instruções musicais, os primeiros acordes de cavaquinho, as primeiras noções de campo harmônico. Aliás, as primeiras e as únicas, porque depois dele eu nunca tive a oportunidade de aprender mais alguma coisa com outra pessoa. Desse modo, é essa a lembrança que fica do nosso saudoso Diquinho – a de um mestre na arte de viver a vida.
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José de Ribamar Buna Lima, o nosso grande seu Riba, o conhecidíssimo Serrote. Não sei de onde vem o apelido, já o conheci Serrote. Ainda menino, o conheci nas minhas viagens de Rosário a São Luís, em companhia da minha mãe. O danúbio de Sebastião Mousinho nos deixava em frente à antiga Assembléia Legislativa, defronte da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, na Rua do Egito. Deixávamos as bagagens na parada e íamos até o Posto São José, na Praça João Lisboa, onde serrote era taxista e, por ele éramos levados pra casa.
Era na casa de Serrote que nos hospedávamos quando estávamos em São Luís. Serrote era branco, descendia de italianos, se a memória não me trai, mas era um tio meu. Tio por consideração, mas, mais que um tio ele era meu amigo. E foi na época áurea da Turma do Saco que a minha admiração por Serrote ficou muito mais forte. Por um fato simples, ele era gente muito boa e tínhamos mútua admiração.
Eu soube que numa tarde, ele estava no posto de táxi da Praça do Cemitério e alguns colegas taxistas começaram uma conversa sobre o carnaval e pensando em chateá-lo deitaram elogios ao URTA – Unidos do Regional Tocado a Álcool (bloco organizado da Madre Deus, que concorria com a Turma do Saco). Serrote os ouviu bem, depois que eles aporrinharam bem, Serrote se levantou e disse: - eu vou dizer uma coisa pra vocês, Luiz Prego fez um samba que tem um tal de Xém nhém nhém, que quando o Saco subir a Praça do Cemitério até defunto vai levantar da cova, esperem pra ver, esse ano só vai dar Saco na cabeça. Resultado: todo mundo ficou caladinho... e o melhor, nesse ano a Turma do Saco foi campeã.
Eu admirava Serrote pela simplicidade, pela forma como ele nos tratava, pelo que ele era – um homem bom, trabalhador e bem humorado.
Serrote costumava dizer: - Além de dona Eunice, eu tenho duas admirações grandes – o Boi da Maioba e a Turma do Saco. Dona Eunice que ele se referia, era a minha tia Eunice, esposa dele, com a qual ele teve oito filhos biológicos e um adotivo: (Joseunir (Joca), Eunimar (Masinha), Joseumar (Burunga), Eliane, Sérgio, José Ribamar (Zequinha), Elesbão (Lelé), João, e Zé Maria.
Sei que Serrote antes do boi da Maioba, gostou muito do boi da Madre Deus, mas durante alguns ensaios sofreu provocações de algum brincante mal comportado e foi obrigado a sair no braço. Por isso deixou de ir nos ensaios do boi da Madre Deus, passando a freqüentar o Bumba-meu-boi da Maioba. Já era amigo de João Chiador e conhecia muito bem o povo da Maioba, não teve problemas ali. Todo ano levava o Boi da Maioba para dançar na porta da casa dele. Na temporada de ensaios, costumava levar-nos aos ensaios na Maioba. Era legal! Ele gostava desses movimentos. Serrote tinha uma característica marcante, era exagerado em quase tudo que fazia ou contava. Por exemplo, se alguém chamava um bumba-meu-boi para dançar em sua casa, comprava alguns litros de bebida para distribuir aos brincantes durante a apresentação. Serrote comprava latas (de 18 litros) de cachaça. Era um homem sabido, de raciocínio rápido.
Certa vez, Serrote viajou para o Rio de Janeiro, num fusca, levando nove pessoas. Chegando numa cidade do Estado do Rio de Janeiro, parou com a sua família para tomar um café e, ao saber o preço do pão reclamou dizendo que na terra dele não era assim. Aí o carioca gozador, o olhou sorridente, e perguntou – qual é a sua terra? – e, de pronto, ele respondeu, minha terra é o Brasil, por quê? Todos que o acompanhavam sorriram ao ver a cara de Amélia que o carioca esboçou com a resposta do velho Serrote. Ninguém ganhava fácil do Serrote.
Gostava de contar hestórias com um certo exagero e se alguém achava graça, ele dava um cascudo na canela.
Numa dessas idas e vindas ao Rio de Janeiro, Serrote fez um passeio turístico pelas escolas de samba e voltou encantado com o que viu. Uma tarde estávamos na calçada da dona Belisa e ele chegou contando da sua visita à Escola de Samba Mangueira, a Estação Primeira de Mangueira. Contava ele que ali ficou muito admirado com os armários de instrumentos. Dizia que de comprimento era como daqui (no caso, da calçada onde estávamos) lá no 24o B C (Batalhão de Caçadores). Aí o Colozinho perguntou, isso tudo Serrote? E ele respondeu: - Só a parte de repenique. E logo, todos soltaram uma gargalhada em uníssono, e ele saiu distribuindo cascudo na canela de todo mundo e a molecada era só pulando e dizendo: Serrote, eu estou rindo, mas estou acreditando...
Teve um tempo que Serrote além de motorista de táxi, comprava e vendia automóveis usados. Para ser mais claro, carros velhos. Carros que ele fazia algum serviço de lataria e de motor, para ter algum atrativo ao comprador. Certa vez, chegou um pretenso comprador, olhou o carro oferecido, com desconfiança e perguntou: - Serrote, como está esse carro? E ele respondeu: - Esse é uma bolinha de borracha, passa em qualquer buraco e não faz zoada nenhuma... Claro que naquela hora ninguém sorriu, mas, as pessoas que ali estavam foram saindo de mansinho para não sorrir à frente do comprador e atrapalhar o negócio, afinal de contas, negócio é negócio.
Poderia ficar horas a fio contando hestórias do Serrote, mas, vou encerrar contando um caso que presenciei. Antes, porém, tenho que chamar a atenção para algumas características do Serrote. Ele era um homem de trabalho. Um motorista que gostava do que fazia e só fazia o que gostava. Eu o conheci quando tinha um Prefec, depois, ainda como taxista, teve um DKV-Vemag, depois lembro-me de um wolkswagen 4 portas e uma infinidade de outros automóveis e caminhonetas.
Houve uma época em que Serrote possuía duas caminhonetas velhas, uma Ford e a outra Chevrolet. A primeira de cor amarela, a segunda, verde. Num desses passeios que ele gostava de fazer para o interior da Ilha, a caminhoneta ia cheia de jovens e crianças, inclusive eu. Quando chegamos na Avenida Kennedy, ele sinalizou com a mão, indicando que entraria à esquerda (ia abastecer no posto de gasolina), mas o motorista já estava muito próximo e para evitar uma colisão teve que fazer uma manobra rápida. Então Serrote não gostou e já saiu do carro com um facão na mão dizendo ao condutor do outro veículo, que, por sinal era um Corcel I novíssimo, - que se acaso ele arranhasse a caminhoneta dele, iria pagar por bem ou por mal...Apesar da seriedade com que ele falava, todos nós sorrimos, o outro carro devia ter saído da fábrica a poucos dias e a caminhonete do Serrote estava prestes a ir para o ferro velho.
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segunda-feira, 28 de março de 2011

A Turma do Saco e o vestibular

Quando eu falo da Turma do Saco estou me referindo a uma geração de participantes – a geração que fundou a Turma do Saco, uma geração que conduzira o bloco A Turma do Saco de forma exclusivamente comunitária. Tudo que se fazia ali resultava de um tremendo esforço coletivo, tinha planejamento, era discutido em reunião, às vezes reuniões acaloradas, tinha o envolvimento da comunidade. Quando eu falo de comunidade refiro-me às crianças, aos jovens, adultos e anciãos. As minhas crônicas são datadas, iniciam na década de 1970 e se estendem até à década de 1990, quando de alguma forma eu ainda participava da Turma do Saco. Por que eu estou falando isto? Porque eu acredito que para entendermos os áureos tempos da Turma do Saco é necessário perceber a geração que por ali passava naquela época. Havia ali muitas cabeças iluminadas naquele dado momento. Uma geração ávida por conhecimento. Gente curiosa, articulada, interessada, trabalhadora, estudiosa, buscando mudanças sociais coletivas e individuais. Jovens que se reuniam na quitanda do seu Belo ou na mercearia do Juarez para tomar cachaça e tirar gosto com camarão salgado, mas que, concomitantemente, tinham a capacidade de virar noites e noites estudando para fazer vestibular e outros concursos. Gente que se gostava e se admirava mutuamente. Gente com uma visão de mundo diferenciada. Gente que lia os clássicos da literatura universal (Julio Verne, Alexandre Dumas...), Karl Marx, Durkheim, Jorge Amado, Nauro Machado, Bandeira Tribuzzi e muitos dos clássicos da literatura nacional. Gente interessada em teatro, música, pintura, artes plásticas. Ali naquele ambiente havia uma certeza: o estudo e o trabalho eram a nossa única saída para um mundo melhor. O estudo tinha preponderância porque era o que definiria a qualidade do posto de trabalho que poderíamos postular no futuro. O trabalho era importante porque era por meio dele que tínhamos que satisfazer necessidades, desejos, sonhos. Em outras palavras, pobre não tem como se manter estudando sem trabalhar. Uma marca que diferenciava essa geração, provavelmente a sua maior diferença, era que ela tinha objetividade, sabia necessariamente onde queria chegar. Foi essa consciência que nos fazia investir tanto do nosso tempo e esforço na busca de um lugar na universidade. Torcíamos pelo vizinho com a certeza de que ele teria influência no nosso futuro. No Codozinho daquela época (dos setenta) quando alguém estava estudando para o vestibular todos nós torcíamos para que essa pessoa lograsse êxito. Cada um representava o bairro querendo entrar na universidade. Por isso, quando alguma pessoa membro da Turma do Saco passava, nós colocávamos o bloco na rua. Essas lembranças M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-A-S enchem os meus olhos de água, chegam mesmo a transbordar. Era muito legal, tínhamos orgulho disso. Era a Dica de dona Ermínia que estava passando no vestibular. Era a Maria Bacabal, filha de Ermínia a doutora formada em Odontologia. A Dadinha, filha da dona Maria Magrinha que passou no vestibular pra Letras. O Joca, filho do Serrote já está formado em Química. Gracinha Cavalcante, estava formando em Química. A Neném de dona Zezé passou para Faculdade de Letras. Wallace, filho do Chico Cabeça entrou na Faculdade de Geografia. O Zequinha de dona Elza passou pra Faculdade de Direito, A Jane Mary passou pra Faculdade de Ciências Contábeis, O Nonato Cavalcante passou pra Faculdade de Direito; o Antônio Cavalcante passou pra Faculdade de Comunicação; o Deco de dona Elza, passou pra Odontologia; Luiz Prego, filho de dona Joana Palitó, passou para a Faculdade de Agronomia. E assim, tantos outros casos foram se sucedendo. Cada pessoa que passava era uma festa, era mais uma vez que colocávamos o bloco na rua para celebrar mais uma vitória da comunidade que resultava de brilhantes esforços individuais. Tínhamos orgulho de dizer que a dona Elza e o seu Zé (ela zeladora de escola e ele expedicionário aposentado) formaram todos os seus filhos: Zequinha, Elzinha e Ezu, advogados; Deco e Aparecida, Odontólogos. Que na casa de dona Ermínia quase todos se formaram: Deuzimar, em Enfermagem; Maria Bacabal, em Odontologia; Dica, em Advocacia; Luís, em Pedagogia; Rosângela, em Serviço Social. Seu Chico Cavalcante e dona Cantídia formaram todos os filhos: Assis, em Matemática; Nonato em Direito; Antônio, em Relações Públicas; Maria dos Anjos, em Pedagogia; Neusinha, em Medicina, e por aí vai. Tínhamos orgulho de morar naquele pedaço de São Luís, nos orgulhávamos de ser vizinho dos nossos vizinhos, éramos felizes por fazer parte da Turma do Saco e víamos no sucesso individual uma forma de projeção daquela comunidade – o Codozinho de Cima. Era por isso que colocamos o bloco na rua toda vez em que cada um de nós passou no vestibular. Entrar na universidade constituía a certeza de mudança na nossa vida. Dali em diante, oportunidades sonhadas poderiam ser realizadas. Tínhamos esta certeza. Contagiávamos todo o bairro com a charanga na rua cantando Alô papai, alô mamãe, bota a vitrola pra tocar, pode tocar foguete que eu passei no vestibular... Todo mundo queria saber o que aquele bando de loucos fazia cantando pelas ruas da cidade. Estávamos compartilhando felicidade, a felicidade de sermos do Codozinho, de participarmos da Turma do Saco, de termos amigos logrando êxito na sua vida particular, concluindo com louvor o rito de passagem para o acesso à universidade pública, gratuita, de boa qualidade. Esse era o espírito do Codozinho dos anos 1970 e 1980.
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domingo, 20 de março de 2011

A construção da sede da Turma do Saco

Lembra do Adoniran Barbosa? Ali, onde agora está aquele edifício alto era uma casa velha... Nós também, parodiando a Saudosa Maloca, do saudoso compositor, poderíamos começar a falar sobre a sede da Turma do Saco quase assim. No nosso caso, o certo é dizer, ali onde agora está a sede da Turma do Saco eram três casas velhas. Numa daquelas casas morou o saudoso Evaldo Rui, Paquinha, Ditinho. Bem, a família do Evaldo se mudou, saiu do Codozinho. As outras duas famílias também se mudaram. As casas pertenciam a uma só família que migrara para o Rio de Janeiro, deixando-as sob os cuidados de um advogado chamado Dr. Pompilo, que para nós, moradores do Codozinho daquela época (início dos anos 1970), era como o caviar da música do Zeca Pagodinho – “...nunca vi, não comi, eu só ouço falar”.
As casas eram tipo porta e janela, com uma construção que combinava taipa e alvenaria de adobe com estrutura em madeira. Sem moradores, frágeis, sem manutenção, logo o tempo se encarregou da demolição. Uma vez caídas, construíram um muro que fechava o terreno.
Aquele terreno era o lugar mais apropriado para soltar as pipas do Luís Carlos. Luís Carlos? É certo que os jovens que residem hoje no Codozinho não sabem nada ou quase nada sobre o Luís Carlos. Essa figura é um capítulo na Hestória do Codozinho. Provavelmente, nem os filhos dele conhece o Luís Carlos do qual eu falo agora, como, aliás, os meus filhos não conhecem o Luiz Prego que o Luiz Carlos conheceu e ajudou muito.
Foi na alfaiataria do Luís Carlos que eu tive a minha primeira oportunidade de trabalho em São Luís. Quando saí de Rosário trouxe na minha bagagem os saberes de aprendiz de alfaiate, acumulados na alfaiataria do lendário Zé Nogueira, sob a orientação do Zé Henrique, a quem sou muito grato. Como os serviços de Luís Carlos se avolumaram, ele precisou de alguém que fizesse os trabalhos manuais e eu e o Rogério Guaianaz (Ratinho) nos habilitamos. Fazíamos bainhas, alinhavos, chulios, pregávamos botões, fazíamos casas para botões, entre outros serviços.
Lembram que na crônica passada eu falei de Nanã, a saudosa dona Belisa? O Luís Carlos era filho de Nanã. Ele era um excelente alfaiate, costurava para metade da elite ludovicense, entretanto, possuía umas manias no mínimo exóticas, muito exóticas. Nós, rapazes do Codozinho daquela época, vivíamos na casa do Luís Carlos. A casa era super aconchegante: tinha cadeira elétrica, manga verde com um preparado de pimenta que ele fazia para presentear o diabo, mas por rejeição do demo, ele nos dava para temperar as mangas verdes que ali comíamos. Era como se estivéssemos mastigando pimentas malaguetas gigantes. Só em lembrar já me arde a boca e meus olhos lacrimejam.
Na sala onde era a alfaiataria do nosso querido Luís Carlos, havia umas três ou quatro cadeiras de ferro revestidas de macarrão. Invariavelmente, uma era a premiada. Ele colocava eletricidade na cadeira. Ligava a um fio elétrico cuja voltagem era controlada por um transformador. Ali, enquanto ele talhava e costurava, ficávamos conversando e quem chegava primeiro logo ia identificando a cadeira que tinha eletricidade e pegava outra, evidentemente. De modo que os primeiros eletrocutados nunca avisavam os que chegavam depois, só para rirmos do choque do próximo desavisado que chegava e de pronto sentava na cadeira e saía dando pinote feito boi de rodeio.
Eu diria que foi por causa de uma invenção do Luís Carlos que iniciamos a limpeza do terreno baldio que restou das ruínas das casas antigas. Ele, nas horas de folga, fazia umas pipas que pareciam ser apropriadas para o King Kong empinar. As pipas eram enormes. Ao invés de linha, eram empinadas com rolos de barbante. Acompanhávamos e o auxiliávamos, sempre curiosos para ver o resultado da exagerada invenção. Quando a pipa subia, aí vinha o desmantelo, eram três a quatro homens pra segurar e terminávamos tendo que soltá-la para evitar estrago maior em nossas mãos e nos telhados dos vizinhos. Soltando pipas com Luís Carlos, cortamos todos os mamoeiros que existiam no terreno. Depois que a pipa abateu o mato maior, sob a liderança do Henrique Pilu, fizemos um mutirão e limpamos o terreno, que naquelas alturas já estava sem muro e sem procurador qualquer.
Depois do terreno limpo, fizemos um barracão de madeira. Coberto com telhas de amianto, ao lado da casa de Bacabal. Assim foi edificada a primeira sede da Turma do Saco, onde fazíamos nossas rodas de samba embaladas por sambas de Benito de Paula, Roberto Ribeiro, Paulinho da Viola, Jorginho do Império e tantos outros compositores e cantores espalhados por este Brasil. Ali o samba de roda nascia redondinho, alimentado por feijoadas, mocotó, sururu, cuxá e outras comidas típicas do Maranhão. Por ali passaram músicos como Henrique Santana, Joacilo, Macarrão, Charles (percussionista), Léo do Cavaquinho, Paulo Trabussi e muitos outros. Isto sem falar nos músicos do bairro, que formavam a roda de samba (César Viégas, o saudoso Assis, Zeco Quim, João Quim, Rogério Guaianaz (Ratinho), Fussura, Laurindo, Lelé, Cosme Cavalcante e muitos e muitos outros.
Com o tempo, o movimento cresceu e tivemos que ocupar todo o terreno, resultando na sede que a Turma do Saco possui hoje, ressalvadas, é claro, as diversas reformas. Em síntese, a primeira sede que construímos para a Turma do Saco resultou de um enorme esforço coletivo. Toda comunidade envolvida participou.