domingo, 20 de março de 2011

A construção da sede da Turma do Saco

Lembra do Adoniran Barbosa? Ali, onde agora está aquele edifício alto era uma casa velha... Nós também, parodiando a Saudosa Maloca, do saudoso compositor, poderíamos começar a falar sobre a sede da Turma do Saco quase assim. No nosso caso, o certo é dizer, ali onde agora está a sede da Turma do Saco eram três casas velhas. Numa daquelas casas morou o saudoso Evaldo Rui, Paquinha, Ditinho. Bem, a família do Evaldo se mudou, saiu do Codozinho. As outras duas famílias também se mudaram. As casas pertenciam a uma só família que migrara para o Rio de Janeiro, deixando-as sob os cuidados de um advogado chamado Dr. Pompilo, que para nós, moradores do Codozinho daquela época (início dos anos 1970), era como o caviar da música do Zeca Pagodinho – “...nunca vi, não comi, eu só ouço falar”.
As casas eram tipo porta e janela, com uma construção que combinava taipa e alvenaria de adobe com estrutura em madeira. Sem moradores, frágeis, sem manutenção, logo o tempo se encarregou da demolição. Uma vez caídas, construíram um muro que fechava o terreno.
Aquele terreno era o lugar mais apropriado para soltar as pipas do Luís Carlos. Luís Carlos? É certo que os jovens que residem hoje no Codozinho não sabem nada ou quase nada sobre o Luís Carlos. Essa figura é um capítulo na Hestória do Codozinho. Provavelmente, nem os filhos dele conhece o Luís Carlos do qual eu falo agora, como, aliás, os meus filhos não conhecem o Luiz Prego que o Luiz Carlos conheceu e ajudou muito.
Foi na alfaiataria do Luís Carlos que eu tive a minha primeira oportunidade de trabalho em São Luís. Quando saí de Rosário trouxe na minha bagagem os saberes de aprendiz de alfaiate, acumulados na alfaiataria do lendário Zé Nogueira, sob a orientação do Zé Henrique, a quem sou muito grato. Como os serviços de Luís Carlos se avolumaram, ele precisou de alguém que fizesse os trabalhos manuais e eu e o Rogério Guaianaz (Ratinho) nos habilitamos. Fazíamos bainhas, alinhavos, chulios, pregávamos botões, fazíamos casas para botões, entre outros serviços.
Lembram que na crônica passada eu falei de Nanã, a saudosa dona Belisa? O Luís Carlos era filho de Nanã. Ele era um excelente alfaiate, costurava para metade da elite ludovicense, entretanto, possuía umas manias no mínimo exóticas, muito exóticas. Nós, rapazes do Codozinho daquela época, vivíamos na casa do Luís Carlos. A casa era super aconchegante: tinha cadeira elétrica, manga verde com um preparado de pimenta que ele fazia para presentear o diabo, mas por rejeição do demo, ele nos dava para temperar as mangas verdes que ali comíamos. Era como se estivéssemos mastigando pimentas malaguetas gigantes. Só em lembrar já me arde a boca e meus olhos lacrimejam.
Na sala onde era a alfaiataria do nosso querido Luís Carlos, havia umas três ou quatro cadeiras de ferro revestidas de macarrão. Invariavelmente, uma era a premiada. Ele colocava eletricidade na cadeira. Ligava a um fio elétrico cuja voltagem era controlada por um transformador. Ali, enquanto ele talhava e costurava, ficávamos conversando e quem chegava primeiro logo ia identificando a cadeira que tinha eletricidade e pegava outra, evidentemente. De modo que os primeiros eletrocutados nunca avisavam os que chegavam depois, só para rirmos do choque do próximo desavisado que chegava e de pronto sentava na cadeira e saía dando pinote feito boi de rodeio.
Eu diria que foi por causa de uma invenção do Luís Carlos que iniciamos a limpeza do terreno baldio que restou das ruínas das casas antigas. Ele, nas horas de folga, fazia umas pipas que pareciam ser apropriadas para o King Kong empinar. As pipas eram enormes. Ao invés de linha, eram empinadas com rolos de barbante. Acompanhávamos e o auxiliávamos, sempre curiosos para ver o resultado da exagerada invenção. Quando a pipa subia, aí vinha o desmantelo, eram três a quatro homens pra segurar e terminávamos tendo que soltá-la para evitar estrago maior em nossas mãos e nos telhados dos vizinhos. Soltando pipas com Luís Carlos, cortamos todos os mamoeiros que existiam no terreno. Depois que a pipa abateu o mato maior, sob a liderança do Henrique Pilu, fizemos um mutirão e limpamos o terreno, que naquelas alturas já estava sem muro e sem procurador qualquer.
Depois do terreno limpo, fizemos um barracão de madeira. Coberto com telhas de amianto, ao lado da casa de Bacabal. Assim foi edificada a primeira sede da Turma do Saco, onde fazíamos nossas rodas de samba embaladas por sambas de Benito de Paula, Roberto Ribeiro, Paulinho da Viola, Jorginho do Império e tantos outros compositores e cantores espalhados por este Brasil. Ali o samba de roda nascia redondinho, alimentado por feijoadas, mocotó, sururu, cuxá e outras comidas típicas do Maranhão. Por ali passaram músicos como Henrique Santana, Joacilo, Macarrão, Charles (percussionista), Léo do Cavaquinho, Paulo Trabussi e muitos outros. Isto sem falar nos músicos do bairro, que formavam a roda de samba (César Viégas, o saudoso Assis, Zeco Quim, João Quim, Rogério Guaianaz (Ratinho), Fussura, Laurindo, Lelé, Cosme Cavalcante e muitos e muitos outros.
Com o tempo, o movimento cresceu e tivemos que ocupar todo o terreno, resultando na sede que a Turma do Saco possui hoje, ressalvadas, é claro, as diversas reformas. Em síntese, a primeira sede que construímos para a Turma do Saco resultou de um enorme esforço coletivo. Toda comunidade envolvida participou.
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