sábado, 19 de fevereiro de 2011

O Codozinho e o Mojore

A minha admiração pelo Codozinho, vem desde a minha infância, quando eu ainda residia em Rosário. A minha mãe era muito ligada a minha saudosa tia Eunice, esposa do saudoso Serrote, irmã da tia Jovem, mulher do meu tio Chico Cabeça. Todos residiam lá na Rua Branca.
Minha irmã Idelcira, morava na casa da minha tia Eunice, daí a razão pela qual sempre minha mãe, D. Joana Palitó, me levava para visitar os parentes.
Na verdade, toda essa gente, era aparentada por afinidade, os parentes consanguíneos mesmo, estavam lá na Madre de Deus, na Rua 01, onde residira meu avô, Graco Baima de Linhares, meus tios Cacaraí (que foi jogador do Sampaio Correia), tio Lousa (Inocêncio Linhares, que deu nome à Turma do Quinto), minha tia Maria Pemba, e o tio Beca (Bernardo Fontes). O outro tio e padrinho, Careca (Joaquim Paz de Linhares), também fundador da Turma do Quinto e autor do samba – Salve, salve a nossa escola de samba, escola que o Quinto criou... lembram?) morava em Rosário, era funcionário da Rede Ferroviária Federal S.A. – REFESA.
Bem, depois deste breve ensaio genealógico, eu volto a lembrar que meus primos por afinidade Wallace, Sandra, Joca, Masinha, Eliane, Tânia, Telma, Concita, Burunga e outros, costumavam passar as férias em Rosário. Ah, como era gostosa aquela época!
À medida que eu me aproximava da adolescência a minha relação com o Codozinho se estreitava mais. A minha paixão pelo futebol fez com que várias vezes a minha mãe intermediasse a ida de times do Codozinho para jogar futebol de salão com equipes de Rosário. Os times (Benfica, América...) eram levados pelo meu tio Chico Cabeça, e todos se hospedavam em nossa casa. Eu adorava esse movimento.
Mas, o que me marcou a reminiscência de forma intensa foi o Mojore – Movimento Jovem Renascença, que não era necessariamente, um movimento do Codozinho, mas, vários jovens dali fizeram parte dele.
O Mojore nascera, se não me falha a memória, ainda na década de 60, quando eu ainda morava em Rosário. Era um movimento de produção intelectual, capitaneado pelo então jovem intelectual, o saudoso João Alexandre Júnior, naquela época já um promissor advogado. O veículo de comunicação do Mojore com a comunidade era o jornal O Balaio. Deste movimento participaram amigos, jovens intelectuais do Codozinho, como José dos Santos Costa (Zequinha de dona Elza, hoje Dr. Costa, Juiz de Direito, ex-deputado estadual), o saudoso Evaldo Rui, Francisco Bahia, Wallace Braz Sena, William Ferreira e muitos outros amigos que moravam lá na Rua Euclides da Cunha. Que me desculpem aqueles cujos nomes eu esqueci.
Esse movimento teve forte pulsação intelectual codozinhense, poesias, músicas, artigos, entre outras produções artísticas emergiram no âmbito do Mojore. Contudo, naquela época, os meios de comunicação não davam voz ou vez a esses rapazes – era a época da ditadura militar. Tudo que eles falavam sofria censura. Vários foram chamados aos órgãos de repressão para explicar frases ou mesmo palavras que escreveram em suas produções intelectuais. Era a época do “eu não sei, nunca vi, muito pelo contrário”, ou do “eu não acho nada, um amigo meu foi achar e nunca mais o acharam”. Tristes tempos, uma nódoa que ficará impregnada nas páginas da História do Brasil, como uma vergonha nacional. Não foi uma época fácil.
Nem precisa dizer que o Mojore foi um movimento de vida breve. O Jornal Pequeno era o único a publicar artigos e poesias dos participantes do Mojore e, das emissoras de rádio, a Rádio Educadora chegou a dar oportunidades para que esses jovens se expressassem.
Lembro-me de um programa da Rádio Educadora, denominado “Ei você”, apresentado por um locutor chamado Maurício José, que várias vezes abriu espaço para os jovens participantes do Mojore declamarem poesias, ou falarem das pretensões do movimento.
Creiam, tudo isso eu acompanhava de Rosário, escutando um rádio de pilha que tínhamos em casa, ou lendo edições atrasadas do Jornal Pequeno, que os meus primos mandavam.
No Codozinho falava-se que o jornal O Balaio fez muito sucesso, mas o movimento não resistiu à força da repressão que caiu sobre ele, e adernou no tenebroso mar de intimidação, ameaças e medo suscitados pela ditadura militar. No Codozinho, ainda que ninguém escondesse o temor que se tinha que qualquer um desses jovens viesse a perder a liberdade, todos os admiravam porque eles colocaram a cara de fora numa época em tudo era proibido. De alguma forma, eles abriram caminho para outros movimentos incorporados pelo Codozinho no curso da História (ou Hestória) daquele maravilhoso bairro.
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