domingo, 15 de maio de 2011

Codozinho: o lugar e as suas personagens


Todos os cenários têm seus personagens que os marcam e os caracterizam em determinados momentos. Cenários, momentos, personagens constituem o trinômio característico dos lugares. No Codozinho dos anos 1970 não era diferente. Quando ali cheguei encontrei pessoas que eram características e do Codozinho de Cima.
Zé Pedrada era um símbolo. Aquele velho negro, barba branca sempre mal feita, estatura média, um tanto atarracado, introspectivo, de poucas palavras, morando sozinho naquela casa porta e janela à frente da casa da Maria Maçarico. Os amigos apontavam: – Olha, aquele é o Zé Pedrada, o negro mais forte que o Codozinho já viu. Ele é pescador aposentado, agora só pesca esporadicamente. Quando pescava, ia para o mar e ao voltar dividia o quinhão com os companheiros de pesca, pegava a sua canoa colocava nos ombros e a carregava da Madre Deus ao Codozinho e a deixava na porta da sua casa.
Zé Pedrada era mesmo motivo de orgulho para as pessoas do Codozinho daquela época. Todos o respeitavam, porque além da fama de homem forte, era também temido por alguns feitos de valentia em defesa de seus vizinhos. Ali, quando dos primórdios do bairro, não raras vezes a rua se viu envolta em brigas com a polícia militar e, num desses eventos, Zé Pedrada lutou com muita bravura batendo em vários soldados e colocando a polícia em debandada sob as vaias do povo codozinhense.
O apelido, de acordo com a lenda, também derivava das brigas e da habilidade que aquele negro forte, calmo, pacato, tinha quando estava com uma pedra na mão. Uma pedra, um pedaço de tijolo, ou um caco de telha nas mãos do Zé Pedrada eram armas poderosas. Mas, o nosso Zé Pedrada, que fique claro, não era um homem encrenqueiro, um brigador, um desordeiro, pelo contrário, era um homem de bem, trabalhador, calmo, caladão, como se diz hoje, na dele. Respeitava todos, tratava todos muito bem, era um ser talhado para o trabalho – a pesca. Assim era o nosso querido e saudoso Zé Pedrada, cuja canoa velha apodreceu na porta dele, como um símbolo, um troféu do seu trabalho e do vigor físico de um pescador negro que quando terminava de pescar colocava o seu instrumento de pesca nas costas e o levava para casa, enquanto os demais deixavam as canoas atadas em moirões à margem do Rio Bacanga.
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Raimundo Santos – O Diquinho. Se alguém chegasse lá no Codozinho perguntando por Raimundo Santos, por certo sairia dali com a informação única de que ali ninguém conhecia qualquer Raimundo Santos, exceto se a pessoa que o procurava tivesse a sorte de bater na porta de dona Dorinha, a mãe de Diquinho.
Porém, se alguém perguntasse por Diquinho, o máximo que as pessoas poderiam responder era: - É um que trabalha no Jornal Pequeno? Mas, isso era mesmo só pra ter a certeza de quem se tratava. Porque Diquinho era inconfundível. Baixinho, ligeirinho, como ele próprio gostava, cheio de picardia. Mestre no manuseio das palavras, doutor em tiradas originalíssimas. Diquinho era linotipista do diário Jornal Pequeno e foi também, se não estou enganado, funcionário dos Correios. Boêmio, gostava da noite, tocava cavaquinho e serrote. É isso mesmo, serrote. O que para o marceneiro e carpinteiro era instrumento de trabalho, para Diquinho era um instrumento musical e, quanta musicalidade ele conseguia extrair do serrote.
Diquinho era um operário das letras, uma vez que como linotipista ele fazia letras de chumbo para imprimir o jornal, mas ele não se contentava com isso e sempre dava uma mão na edição da coluna A Peroba, cujo responsável era o velho e saudoso Bogéa, seu patrão e amigo – o proprietário do Jornal Pequeno. A Peroba tratava daquilo que Diquinho mais entendia – tiradas, piadas, charadas.
Certa vez eu conversava com Diquinho na porta da casa dele. Enquanto isso, um carro pipa abastecia a casa de um vizinho de classe média com água potável. Naquela época o bairro tinha muita carência desse imprescindível líquido. Então ele se virou pra mim e disse: - Tá vendo LP (de Luiz Prego), enquanto ele tem um carro pipa cheio de água, nós ficamos só com água na boca...
Uma tarde Diquinho estava no quiosque da Praça João Lisboa, tomando um conhaque, quando um amigo intimidoso o avistou e, do outro lado da rua foi logo gritando: - Ei fidumaégua! - Diquinho, com a sutileza que lhe era peculiar, virou-se para a janela do quiosque, depois se virou novamente para o amigo e disse: - amigo, isto aqui é uma janela, não é um espelho. Com as gargalhadas que ele arrancou dos presentes, deixou o amigo desconsertado.
Uma noite, após o serviço, Diquinho saiu tomando umas e outras com o chefe e mais uns amigos. Todos de classe média, só ele era pobre, mas era querido no meio pelo que representava culturalmente, pois além de amigo, tinha intimidade com o cavaquinho, tinha um bom papo, era gente boa. De bar em bar, foram parar no quiosque da Praça do Cemitério, cujo proprietário na época era o Zé Caldas, também morador do bairro do Codozinho. Sentados à mesa, Diquinho tirou uma carteira de cigarros do bolso e os ofereceu. Todos recusaram educadamente, alegando que se tratava de um cigarro muito forte. Ele tirou um cigarro e o acendeu, recolhendo em seguida a carteira ao bolso, enquanto os demais fumantes colocaram as suas respectivas carteiras de cigarros à mesa.
Mas, papo de boêmios atravessa a noite, entra pela madrugada e não raras vezes, é aquecido pelos raios da manhã. Neste dia, não foi diferente. Entre um papo e outro, uma música, uma piada e outros assuntos afins os cigarros dos outros acabaram. Recorreram ao Zé Caldas, mas o estoque deste já havia acabado. Diquinho, sutilmente colocou a sua carteira de cigarros gaivota (fortíssimos) à mesa. E como vocês sabem, fumante é fumante, pode ter preferência por alguma marca, mas no fundo gosta mesmo é de fumar. Sem qualquer surpresa para Diquinho eles fumaram todos os cigarros dele, que de início recusaram sob a alegação de se tratarem de um produto muitíssimo forte, o que de fato o era, entretanto, não foram percebidos do mesmo modo com a falta da marca que eles preferiam, o que os deixou sob o olhar sutil e sarcástico de Diquinho.
Diquinho foi um mestre no ato de fazer piadas, na construção de trocadilhos, na arte de fazer charadas. Aliás, uma das coisas que ele mais gostava era fazer charadas.
Foi o meu mestre. Foi dele que recebi as primeiras instruções musicais, os primeiros acordes de cavaquinho, as primeiras noções de campo harmônico. Aliás, as primeiras e as únicas, porque depois dele eu nunca tive a oportunidade de aprender mais alguma coisa com outra pessoa. Desse modo, é essa a lembrança que fica do nosso saudoso Diquinho – a de um mestre na arte de viver a vida.
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José de Ribamar Buna Lima, o nosso grande seu Riba, o conhecidíssimo Serrote. Não sei de onde vem o apelido, já o conheci Serrote. Ainda menino, o conheci nas minhas viagens de Rosário a São Luís, em companhia da minha mãe. O danúbio de Sebastião Mousinho nos deixava em frente à antiga Assembléia Legislativa, defronte da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, na Rua do Egito. Deixávamos as bagagens na parada e íamos até o Posto São José, na Praça João Lisboa, onde serrote era taxista e, por ele éramos levados pra casa.
Era na casa de Serrote que nos hospedávamos quando estávamos em São Luís. Serrote era branco, descendia de italianos, se a memória não me trai, mas era um tio meu. Tio por consideração, mas, mais que um tio ele era meu amigo. E foi na época áurea da Turma do Saco que a minha admiração por Serrote ficou muito mais forte. Por um fato simples, ele era gente muito boa e tínhamos mútua admiração.
Eu soube que numa tarde, ele estava no posto de táxi da Praça do Cemitério e alguns colegas taxistas começaram uma conversa sobre o carnaval e pensando em chateá-lo deitaram elogios ao URTA – Unidos do Regional Tocado a Álcool (bloco organizado da Madre Deus, que concorria com a Turma do Saco). Serrote os ouviu bem, depois que eles aporrinharam bem, Serrote se levantou e disse: - eu vou dizer uma coisa pra vocês, Luiz Prego fez um samba que tem um tal de Xém nhém nhém, que quando o Saco subir a Praça do Cemitério até defunto vai levantar da cova, esperem pra ver, esse ano só vai dar Saco na cabeça. Resultado: todo mundo ficou caladinho... e o melhor, nesse ano a Turma do Saco foi campeã.
Eu admirava Serrote pela simplicidade, pela forma como ele nos tratava, pelo que ele era – um homem bom, trabalhador e bem humorado.
Serrote costumava dizer: - Além de dona Eunice, eu tenho duas admirações grandes – o Boi da Maioba e a Turma do Saco. Dona Eunice que ele se referia, era a minha tia Eunice, esposa dele, com a qual ele teve oito filhos biológicos e um adotivo: (Joseunir (Joca), Eunimar (Masinha), Joseumar (Burunga), Eliane, Sérgio, José Ribamar (Zequinha), Elesbão (Lelé), João, e Zé Maria.
Sei que Serrote antes do boi da Maioba, gostou muito do boi da Madre Deus, mas durante alguns ensaios sofreu provocações de algum brincante mal comportado e foi obrigado a sair no braço. Por isso deixou de ir nos ensaios do boi da Madre Deus, passando a freqüentar o Bumba-meu-boi da Maioba. Já era amigo de João Chiador e conhecia muito bem o povo da Maioba, não teve problemas ali. Todo ano levava o Boi da Maioba para dançar na porta da casa dele. Na temporada de ensaios, costumava levar-nos aos ensaios na Maioba. Era legal! Ele gostava desses movimentos. Serrote tinha uma característica marcante, era exagerado em quase tudo que fazia ou contava. Por exemplo, se alguém chamava um bumba-meu-boi para dançar em sua casa, comprava alguns litros de bebida para distribuir aos brincantes durante a apresentação. Serrote comprava latas (de 18 litros) de cachaça. Era um homem sabido, de raciocínio rápido.
Certa vez, Serrote viajou para o Rio de Janeiro, num fusca, levando nove pessoas. Chegando numa cidade do Estado do Rio de Janeiro, parou com a sua família para tomar um café e, ao saber o preço do pão reclamou dizendo que na terra dele não era assim. Aí o carioca gozador, o olhou sorridente, e perguntou – qual é a sua terra? – e, de pronto, ele respondeu, minha terra é o Brasil, por quê? Todos que o acompanhavam sorriram ao ver a cara de Amélia que o carioca esboçou com a resposta do velho Serrote. Ninguém ganhava fácil do Serrote.
Gostava de contar hestórias com um certo exagero e se alguém achava graça, ele dava um cascudo na canela.
Numa dessas idas e vindas ao Rio de Janeiro, Serrote fez um passeio turístico pelas escolas de samba e voltou encantado com o que viu. Uma tarde estávamos na calçada da dona Belisa e ele chegou contando da sua visita à Escola de Samba Mangueira, a Estação Primeira de Mangueira. Contava ele que ali ficou muito admirado com os armários de instrumentos. Dizia que de comprimento era como daqui (no caso, da calçada onde estávamos) lá no 24o B C (Batalhão de Caçadores). Aí o Colozinho perguntou, isso tudo Serrote? E ele respondeu: - Só a parte de repenique. E logo, todos soltaram uma gargalhada em uníssono, e ele saiu distribuindo cascudo na canela de todo mundo e a molecada era só pulando e dizendo: Serrote, eu estou rindo, mas estou acreditando...
Teve um tempo que Serrote além de motorista de táxi, comprava e vendia automóveis usados. Para ser mais claro, carros velhos. Carros que ele fazia algum serviço de lataria e de motor, para ter algum atrativo ao comprador. Certa vez, chegou um pretenso comprador, olhou o carro oferecido, com desconfiança e perguntou: - Serrote, como está esse carro? E ele respondeu: - Esse é uma bolinha de borracha, passa em qualquer buraco e não faz zoada nenhuma... Claro que naquela hora ninguém sorriu, mas, as pessoas que ali estavam foram saindo de mansinho para não sorrir à frente do comprador e atrapalhar o negócio, afinal de contas, negócio é negócio.
Poderia ficar horas a fio contando hestórias do Serrote, mas, vou encerrar contando um caso que presenciei. Antes, porém, tenho que chamar a atenção para algumas características do Serrote. Ele era um homem de trabalho. Um motorista que gostava do que fazia e só fazia o que gostava. Eu o conheci quando tinha um Prefec, depois, ainda como taxista, teve um DKV-Vemag, depois lembro-me de um wolkswagen 4 portas e uma infinidade de outros automóveis e caminhonetas.
Houve uma época em que Serrote possuía duas caminhonetas velhas, uma Ford e a outra Chevrolet. A primeira de cor amarela, a segunda, verde. Num desses passeios que ele gostava de fazer para o interior da Ilha, a caminhoneta ia cheia de jovens e crianças, inclusive eu. Quando chegamos na Avenida Kennedy, ele sinalizou com a mão, indicando que entraria à esquerda (ia abastecer no posto de gasolina), mas o motorista já estava muito próximo e para evitar uma colisão teve que fazer uma manobra rápida. Então Serrote não gostou e já saiu do carro com um facão na mão dizendo ao condutor do outro veículo, que, por sinal era um Corcel I novíssimo, - que se acaso ele arranhasse a caminhoneta dele, iria pagar por bem ou por mal...Apesar da seriedade com que ele falava, todos nós sorrimos, o outro carro devia ter saído da fábrica a poucos dias e a caminhonete do Serrote estava prestes a ir para o ferro velho.
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