domingo, 5 de abril de 2015

Dona Bonitinha

Bonitinha, era como todos a chamavam, acredita-se que por ter um porte privilegiado pela natureza. Tinha um rosto bem desenhado, desses que toda mulher deseja ter. Era dona de um corpo escultural. Sempre fora assim, por isto, desde menina, os vizinhos lhe chamavam de Bonitinha. Sempre de alto astral, o seu rosto era o habitat de um sorriso simpático que parecia se expandir quando ela cumprimentava as pessoas. Apesar de poucos conhecerem o seu verdadeiro nome, ela foi batizada como Maria Havana dos Santos.
Nascida numa comunidade pobre, logo cedo Bonitinha se integrara aos movimentos comunitários, especialmente, aqueles ligados à Igreja. Foi líder do clube de jovens, animadora da Legião de Maria, frequentadora assídua das comunidades de base. Casou-se com um homem simples, de poucos verbos, mas, da mesma forma, atuante e respeitado na comunidade.
Depois dos trinta, os jovens que foram seus alunos na escola fundamental, na catequese, ou os que com ela preparavam o dever de casa, passaram a chama-la de dona Bonitinha.
Certo dia dona Bonitinha participava de um encontro de lideranças comunitárias junto com seu marido Alfredo Augusto dos Santos. O encontro era num sítio espetacular de uma entidade religiosa, durante dois dias. O primeiro dia era dedicado às palestras de especialistas. O segundo dia, os participantes trabalhavam em grupo para discutir e emitir opiniões as problematizações surgidas durante as palestras.
Durante os trabalhos de grupo, dona Bonitinha percebeu que um colega de grupo estava inclinando as asas para o seu lado. Ficou incomodada com os gestos do colega, sempre dava jeito de ele olhar a aliança grossa que ela trazia no anelar da mão esquerda, mas o seu Benedito, como ela o chamava, não evitava as brincadeiras de D. Juan para cima de dona Bonitinha. Em um dos intervalos dos trabalhos de grupo, dona Bonitinha chamou a atenção do seu marido, Alfredo Augusto, para o fato. – Alfredo Augusto, estou percebendo que o companheiro Benedito está interessado por mim. Alfredo Augusto retrucou: - Que nada, Bonitinha, isso é só brincadeira do companheiro Benedito. Mas Bonitinha insistiu e disse acreditar não se tratar apenas de brincadeiras, o companheiro Benedito estava se interessando dela como mulher e pediu que o marido observasse os modos do Benedito durante os intervalos dos trabalhos de grupo.
Alfredo Augusto atendendo a sugestão da sua mulher passou a ficar mais próximo do grupo de Bonitinha durante os intervalos e, para sua surpresa, constatou que o companheiro Benedito, de quem era amigo há muito tempo, estava, de fato, jogando rosas para dona Bonitinha. Alfredo Augusto respirou muitas vezes para não agredir o companheiro, afinal, ali não era a hora nem o lugar para violências. Pensou, pensou e resolver ter uma conversa com o Benedito. Na primeira oportunidade chamou o companheiro Benedito para uma conversa em particular e foi direto ao assunto: - Companheiro eu estou percebendo que você está interessado na minha mulher. Benedito, de pronto tentou desconsiderar o que Alfredo Augusto dissera. – Que que é isso, companheiro Alfredo Augusto? Mas, Alfredo Augusto nem lhe dera tempo a disfarces e foi logo o acalmando. – Não tente disfarçar, nem fique preocupado, porque eu tenho certeza do que estou dizendo e a Bonitinha também tem. Entretanto, eu compreendo o que está acontecendo. A bonitinha é uma mulher bonita, se veste com naturalidade, mas de modo adequado, fala com desembaraço, está sempre de bom humor e tudo isso faz dela uma mulher interessante. Daí o seu interesse, eu compreendo. Agora eu sei também que esse porte que chama a atenção de outros homens decorre da nossa boa relação, do bom tratamento que eu sempre dei a ela como a mulher que eu amo. Companheiro, se você der o tratamento adequado a sua mulher, tenho a certeza que você vai se interessar mais e só por ela, como eu só tenho olhos para Bonitinha. Foi o suficiente para o Benedito encolher as asas e deixar dona Bonitinha em paz.
Em casa, o Alfredo Augusto procurou refletir com a mulher sobre os acontecimentos e agradeceu a ela pela coragem, sinceridade, integridade e, sobretudo, a lealdade. Dona Bonitinha lhe disse apenas que ele e ela eram produtos da relação que eles mesmos construíram ao longo das suas vidas. Disse-lhe que a visibilidade que chamava atenção do companheiro Benedito, assim como, provavelmente, de muitas mulheres por ele, resultava da boa fase que atravessavam em suas vidas e que ambos não poderiam cair na cilada de se encantarem pela dança das mariposas. Alfredo Augusto, aos risos, interrogou-lhe: - Dança das mariposas?
Dona Bonitinha, com simplicidade o explicou: - Todos temos uma luz natural que quando acesa chama a atenção das pessoas com as quais nos relacionamos e, quando essa luz está apagada nos tornamos quase que invisíveis, as pessoas nos olham, falam conosco, mas não nos percebem. Não chamamos a atenção de quase ninguém. Veja as lâmpadas, quando acessas, diversos insetos voam em torno delas. As mariposas se destacam pelo porte que têm. É esse voo delas em volta da lâmpada que eu chamo de dança das mariposas, porque, uma vez atraídas pela luminosidade da lâmpada, elas voam em torno desta como se quisessem atraí-la para si. Só que as mariposas voam numa dança inglória, mas as pessoas, nem sempre. Entre os humanos, o sucesso da “mariposa” depende da fraqueza da lâmpada. Aí é que entra a lealdade, o companheirismo, a cumplicidade, o amor construído na linha do tempo de cada relação.
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