sexta-feira, 22 de maio de 2009

O boi Mim

Lá vem pelo meio da rua, em plena manhã aquele bando de homens com um boizinho de buriti coberto de veludo e bordado com miçangas e canutilhos, uma lamparina acesa na ponta de uma vara e uma afinada orquestra tocando. Na frente, o amo do boi segurando numa das mãos o boi pequenino e dançando, ia de um lado ao outro da rua, enquanto todos cantavam a doada do boi, que era uma só:

Eu vim de São Simão
E vou pro Itamirim
Quem quiser ganhar dinheiro
Vem dançar debaixo de mim

Toda cidade já conhecia – era o boi Mim, encabeçado por um grupo de amigos, todos com mais de cinqüenta anos de idade, entre os quais se destacavam, Cesário Rezzo, Filinto de dona Canjoca, Zé Miranda, Joaquim Coelho e uma plêiade de amigos conhecidíssimos em Rosário.
Ali na terra onde o boi de orquestra foi inventado, o boi Mim era mais uma brincadeira do gênero que surgira para fazer aquela terra mais alegre. Era uma brincadeira muito bonita, de originalidade sem igual.
Não tinha fantasia, não tinha ensaio, era uma brincadeira feita só de alegria e amizade. Todos ali eram amigos, gostavam de uma boa e geladíssima cerveja e viviam se encontrando na residência de alguns deles para bebemorar qualquer coisa.
A casa de Cesário Rezzo foi locos de muitas reuniões dessa turma. Sempre que eles se reuniam, dona Rosa de Cesário convidava a minha mãe, Joana Palitó, para dar uma ajuda na cozinha.
Cesário Rezzo tinha descendência sírio-libanesa, razão pela qual, creio, as reuniões eram sempre fartas de quibe e outros quitutes do gênero. Eu acompanhava sempre a minha mãe nessas ocasiões. Lembro da casa ampla, longa, de cômodos amplos e quintal comprido que chegava até a rua onde fica a vacaria dele.
Cesário Rezzo era homem de poucas palavras, de aparência sóbria, valente, corajoso, trabalhador, empreendedor e muito respeitado. Quem o visse no quotidiano do seu trabalho, jamais o pensava como uma pessoa tão alegre e generosa, dado a participar de brincadeiras como o boi Mim.
Todos os participantes eram pessoas respeitadas da sociedade rosariense. Provavelmente, na volta do trabalho, se encontravam na Praça da Matriz, no quiosque de Caetano e, depois das duas primeiras dúzias da gelada, chamavam o primeiro menino que passasse e diziam: - menino tu és filho de quem?Sabe onde é a casa de Carambanja? Vai lá e diz que venha aqui no botequim do Caetano falar com Joaquim Coelho, mas, diz pra ele trazer o banjo, que a conversa é muito séria. As risadas não faltavam, é claro. E logo, se passava alguém em rumo a praça do mercado, diziam: - amigo, por favor, já que você vai pra aquelas bandas, passa lá casa do Zé Serra e diz que ele venha aqui depressinha falar uma coisa séria com o Cesário Rezzo, mas, pra ele não esquecer do piston.
Evidente que podiam ser outros músicos, o certo é que num piscar de olhos, não se sabia bem de onde, saía o boi Mim. Mas, Rosário tem dessas coisas, o povo vive sempre a inventar coisas novas. Novas formas de divertimento que reproduzem o alegre e criativo espírito rosariense.Certo é, que infelizmente, brincadeiras como o boi Mim, o pastor de dona Rosa Viana, os grupos de dançantes do pela porco, o tambor de mina de Faustino Rayol e Sebastião Pimenta Longa, o bloco do João Roliço e tantas outras brincadeiras representativas típicas do espírito divertido do povo rosariense, passaram assim como os seus criadores. Mas, com a dinâmica que tem a nossa cidade, estou certo de que novas formas de divertimentos foram criadas. E como não poderia deixar de ser, Rosário se eterniza como uma cidade de gente alegre, brincalhona, hospitaleira, que acima de tudo, não abre mão da sua rosariensinidade.

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