segunda-feira, 7 de julho de 2014

A nossa resenha está mais triste



Meus olhos umedecem só em pensar nos momentos bons da minha vida, que tive o privilégio da companhia e da amizade do meu compadre Laurindo e Nazareth Moscoso. Nazareth era uma dessas figuras que, como dizia a minha saudosa mãe, não deixava almoço pra janta. Tudo que tinha que dizer, ela dizia na hora.
Uma grande amiga que eu preferia chamar de cunhada. Minha cunhada. Conheci Nazareth Moscoso nos tempos áureos do Grupo Sem Dimensão, que reunia craques do samba como meu compadre Laurindo, Josias, Carlão (saudoso sobrinho), Cacá, Juca, Luís Júnior, Dênis, meu compadre Raimundo Nonato e outros.
Tive a felicidade da amizade de Nazareth Moscoso na fase mais difícil da minha vida – quando fiquei viúvo. Naqueles momentos de sofrimento e solidão, era ela a única amiga que me chamava em sua casa. “Meu cunhado, Laurindo vai fazer um pato, eu já chamei o Cláudio Pinheiro e outros amigos”. Ela sabia que não dava pra recusar pato preparado pelo meu compadre Laurindo. Eu sempre ia.
Não gostava de me ver nem triste, nem alegre demais. Se eu estava triste, ela puxava conversa sobre a Turma do Saco. Sabia da minha paixão pelo bloco e, só pra me provocar se derramava em elogios para o URTA, que foi, sem dúvidas, o maior concorrente que a TS já teve. Não dava outra, a resenha ficava animada, com ela, às vezes elogiando a concorrente, às vezes se referindo a mim, Zé Manuel, Laurindo como aquelagenteatoadocodozinho. Era assim, falava de uma maneira que parecia uma palavra só. Eu sempre dizia: Tá vendo Zé Manuel, culpado disso é o Laurindo, com tanta menina bonitinha lá no Codozinho, ele foi procurar Nazareth, lá na Rua do Norte. Ela dava aquelas gargalhadas gostosas e altas, e me chamava de o-r-d-i-n-á-r-i-o. Numa pronúncia que parecia derramar letra por letra.
Se eu chegava na resenha alegre demais, já tendo tomado umas, falando alto e provocando com todo mundo, ela se calava, fazia bico e eu já sabia que ela não estava gostando. Se estava zangada, não me xingava, não tinha resenha. Era sempre sincera e amiga.
Quando ela começava a gozar de mim, eu tinha sempre uma saída. Contava a história do início do namoro dela com Laurindo. Ela ficava rindo de mim.
Uma vez estava na casa do meu saudoso irmão, Zé Pitó, no aniversário dele e rolava um churrasco. Meu compadre Laurindo passava perto da churrasqueira e uma colega mal avisada o olhou e exclamou: - olha como Laurindo está gordo! Ela de pronto disse: gordo, com colesterol alto, hipertenso, cardíaco, roncando muito, com apneia e haja doença. Ouvindo-a fazer aquela relação de enfermidade, fiquei preocupado, me sentei perto dela e, quando a pessoa que falou saiu, eu a perguntei: - minha cunhada, é verdade que o meu compadre está tão doente assim? Ela, me disse – Tá vendo, meu cunhado, que mulher abusada? Disse isso pra ela não se interessar mais pelo meu marido. Todos riram. Ela era assim.
Onde ela estivesse a resenha era sempre boa. No Bar da Xixita, na casa de Dora, na casa de Maria, na casa de Georgina, na minha casa, Nasa, como meu compadre Laurindo a chamava, não podia faltar.
Querida, ela reunia no bosque do condomínio onde ela morava, todos os vizinhos e os ilustres do samba maranhense num churrasco, ou feijoada, ou por qualquer motivo. Parecia um clube. Animada, mas era de pouca bebida, gostava mesmo era da resenha.
Minha cunhada, Nazareth Moscoso, poderia escrever muitas páginas pra falar da sua importância na minha vida e de muitos, contudo, sei que as minhas palavras são incapazes de descrever as suas virtudes como amiga de todas as horas. Sempre ficava admirado pelo amor que você tinha pelo exercício da sua profissão. Fascinava-me a dedicação e o carinho pelas crianças pobres que você educava.
Nunca me esqueci de um aniversário, acho que da Luana, naquele apartamento sempre muito bem arrumado, que eu dizia parecer casa de boneca. Na ocasião da divisão do bolo, você sentiu falta do filho da Neide (vizinha e amiga). Ah, falta o filho da Neide. Deu uns dois gritos chamando o guri, ele desceu as escadas e foi contente comer o bolo. Comeu, bebeu refrigerante e ficou parado, com se quisesse mais. Você perguntou se ele queria mais, ele disse que não, só queria levar um pedacinho pra mãe dele. Naquele dia você me marcou com o seu lado materno, de tia, amiga, leal, cuidadosa com as suas amizades.
Nazareth Moscoso, você era uma pessoa de muitas virtudes, mas o meu coração fica para sempre tatuado pelas tintas da sua lealdade, da sua sinceridade, da sua amizade, da sua bondade.
Sei, no entanto, que minhas lágrimas e as lágrimas de todos que te amam decorrem da nossa pouca sabedoria diante dos atos do Altíssimo. Sabemos que a nossa resenha fica mais triste, neste momento. No fundo, acreditamos que Ele tem uma missão para você lá em cima e que, assim como tu enobreceste a terra com a tua vida, haverás de agregar alegria e virtude na vida celestial para que foste chamada agora.

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