sábado, 13 de fevereiro de 2016

Brinquedinho



Na música “Maracatu atômico”, de Gilberto Gil, tem uma frase, para mim, muito significativa, pois, ela é reveladora do sentimento humano: - “ Em cima do guarda-chuva tem a chuva, tem a chuva, e tem gotas tão lindas que até dá vontade de comê-las”. O artista, nesta frase revela o sentimento humano que vai da admiração ao sentimento de posse. Do impulso, do instinto humano, que não se basta na admiração, mas, para além dela, quer possuir o alvo da sua admiração. Mais do que possuir, quer consumir. Como revela a música: “...gotas tão lindas que até dá vontade de comê-las”. Em síntese: - são lindas e eu as quero para mim.
Na vida, nada nos custa admirar, nada nos custa desejar a posse, ou almejar o consumo de alguma coisa que admiramos; mas daí até a posse, precisamos de poder para possuir alguma coisa. O poder de consecução daquilo que desejamos, nem sempre nos acompanha no momento exato que a desejamos. Às vezes, o interregno entre o desejo e a consecução é longo, muito longo. E foi em função desse tempo que me veio o conceito de “Brinquedinho”.
Há desejos de infância que são saciados já na fase adulta, quando, aparentemente a pessoa nem precisa mais possuir, ou consumir aquilo que desejou. Entretanto, subjaz na sua memória o antigo desejo, como se fora uma fome específica de um nutriente, que só será saciada com a ingestão deste, não importa o tempo que passar. O desejo guardado na mente jamais se apagará da memória sem a posse, sem o consumo. Não basta olhar, a menos que este olhar sacie o desejo de posse, seja o próprio consumo. Os casos das viagens, por exemplo. A pessoa desde criança sente vontade de viajar para tal lugar, mas nunca teve poder para concretizar o seu desejo, contudo, numa outra fase da vida ela conseguiu poder suficiente para ir conhecer o lugar desejado, e foi, realizou o seu desejo, satisfez o sentimento de posse, tirou de si o vazio de realização, consumiu com o olhar e, ou com outros sentidos aquilo que desejou a vida inteira. Pronto! Ganhou, comprou, possuiu o seu “brinquedinho”.
Lembra daquele fusca envenenado, que o fulano fazia cavalo de pau, com rodas tala largas, rebaixado e, etc. e tal? Ele admirava tanto, desejava tanto ter um daquele, mas, naquela época, era apenas um menino pobre. Agora como profissional realizado, adquiriu poder suficiente para comprar dezenas de carros modernos e já os tem. Mas, do que adianta? Ele não se completará se não tiver o seu brinquedinho. Por isso, ele o procura, compra e realiza o seu desejo, sacia a ansiosa vontade de possuir esse bem, essa vontade que carregou durante a sua existência.
Outras vezes o “brinquedinho” é apenas uma roupa de frio que o seu ídolo vestiu e lhe deixou o desejo na mente para toda a vida. Um dia você vai e compra, quando já nem precisa mais daquela roupa, pois ela nem combina com o lugar onde você reside, mas, o que importa? O importante é ver o seu brinquedinho adquirido. Os brinquedinhos são atemporais, não obedecem aos parâmetros modais e, constituem, mais que qualquer outra coisa, a satisfação de uma vontade contida por algum tipo de necessidade impeditiva da sua obtenção num determinado momento da vida. Simultaneamente, a sua obtenção significa a demonstração de um poder de posse, uma realização, a satisfação de um desejo sem o qual a pessoa não se achará completa, satisfeita.
Este é o meu conceito de “brinquedinho”. Você deseja ter algum brinquedinho? Já concretizou a aquisição de algum brinquedinho? Conhece alguém que tem, ou tem vontade de ter?
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